MERCADO FINANCEIRO

Dólar ultrapassa R$ 5,00 com temor de agravamento do conflito no Oriente Médio

Moeda americana fecha acima do patamar psicológico diante de tensões geopolíticas e alta do petróleo; real sente impacto

Publicado em 23/04/2026 às 18:22
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O dólar rompeu o patamar de R$ 4,95 na manhã desta quinta-feira (23), mas ganhou força ao longo da tarde diante do aumento da aversão ao risco nos mercados internacionais. A moeda encerrou o dia acima dos R$ 5,00, reflexo das incertezas em torno do conflito no Oriente Médio. A decisão do presidente do parlamento iraniano, Mohammad Ghalibaf, de deixar as negociações com os EUA e as ameaças de ataques mútuos entre Israel e Irã aumentaram a tensão entre investidores, que buscaram refúgio na moeda americana.

As cotações do petróleo, que já subiam no fim da manhã em meio a dúvidas sobre a liberação do Estreito de Ormuz, aceleraram na segunda metade do pregão. O barril do Brent para junho, referência internacional, fechou em alta de 3,1%, a US$ 105,07 — quarta sessão consecutiva de valorização, acumulando ganhos de dois dígitos na semana.

Com máxima de R$ 5,0176 na última hora de negócios, o dólar à vista encerrou o dia em alta de 0,60%, a R$ 5,0036 — primeiro fechamento acima de R$ 5,00 desde 10 de abril (R$ 5,0115). Operadores destacam um movimento de realização de lucros e recomposição de posições defensivas no fim do dia. Com o avanço, o dólar acumula alta de 0,41% na semana, enquanto em abril ainda registra queda de 3,38%.

“Acredito que houve uma zeragem para realização de lucros com as notícias sobre o conflito no Irã. As moedas que mais se valorizaram recentemente, como o real, o peso chileno e o rand sul-africano, estão desvalorizando mais nesta quinta-feira”, avalia Marcos Weigt, diretor da Tesouraria do Travelex Bank.

Pela manhã, o real chegou a se destacar entre as moedas emergentes, com o dólar atingindo mínima de R$ 4,9405. Rumores circularam sobre a possível internalização de recursos da captação de 5 bilhões de euros pelo Tesouro Nacional na semana passada, com liquidação prevista para esta quinta-feira. Tecnicamente, o Tesouro converteria euros em dólares e, posteriormente, em reais.

Analistas apontam que o real foi favorecido entre emergentes pelo cessar-fogo na guerra do Irã iniciado em abril e prorrogado pelo presidente Donald Trump, mantendo os preços do petróleo em patamares elevados e beneficiando os termos de troca do Brasil. Com a intensificação da aversão ao risco, investidores reduziram posições em moedas emergentes, o que impactou o real.

O índice DXY, termômetro do dólar frente a uma cesta de seis moedas fortes, operou em alta ao longo do dia e subia cerca de 0,20% no fim da tarde, em torno dos 98.800 pontos, após máxima de 98.939 pontos. A coroa norueguesa foi a moeda que mais perdeu valor, apesar da alta do petróleo. O Dollar Index acumula alta de mais de 0,50% na semana, mas ainda recua cerca de 1% em abril.

“O mercado voltou ao modo aversão ao risco diante da fragilidade nas negociações de paz com os EUA e das ameaças de novos ataques entre Irã e Israel. A possibilidade de escalada do conflito aumenta a busca por proteção no dólar”, afirma Reginaldo Galhardo, gerente de câmbio da Treviso Corretora.

Apesar de relatos de entrada de recursos externos para investimentos em carteira no Brasil, dados do Banco Central mostram que, em abril (até o dia 17), houve saída líquida de US$ 3,988 bilhões. Como houve entrada líquida de US$ 788 milhões via comércio exterior, o saldo total no período ficou negativo em US$ 3,2 bilhões.