TECNOLOGIA E SOBERANIA

Analista alerta para avanço do 'colonialismo digital' e perda de soberania no Sul Global

Jurista indiano Pavan Duggal aponta riscos de dependência tecnológica e controle de dados por grandes empresas no Sul Global.

Publicado em 23/04/2026 às 07:22
Jurista alerta para riscos do colonialismo digital e perda de soberania no Sul Global. © Foto / Tânia Rêgo/Agência Brasil

Em entrevista à Sputnik, o jurista Pavan Duggal alertou que grandes empresas de tecnologia utilizam modelos avançados de inteligência artificial (IA) para instaurar um “colonialismo digital”. Segundo ele, esse movimento cria dependência, captura de dados estratégicos e enfraquece a soberania dos países do Sul Global.

Pavan Duggal, advogado indiano considerado referência mundial em direito da IA ​​e governança de tecnologias emergentes, afirma que o mundo enfrenta uma nova forma de dominação: o colonialismo digital.

“O colonialismo digital se refere a um interesse por quais grandes empresas de tecnologia buscam colonizar grandes áreas do mundo por meio de seus próprios programas de IA”, explicou Duggal.

Para o especialista, essas características vão além da desigualdade digital. Enquanto a desigualdade está relacionada ao acesso desigual à tecnologia, o colonialismo digital atua em outra dimensão: transforma cidadãos em "escravos cognitivos", atualizando processos de pensamento e criando dependência intelectual. "Quanto mais conforto a IA proporciona, mais complacência se instala", pontudo.

Segundo Duggal, a lógica aplicada ao Sul Global é clara. Ao oferecer algoritmos avançados a países menos desenvolvidos, muitas vezes gratuitamente ou a preços simbólicos, cria-se uma relação de dependência. Paralelamente, esses sistemas coletam dados seguros — pessoais, culturais, econômicos e estratégicos —, permitindo que as empresas influenciem decisões nacionais e moldem políticas públicas. "Hoje não é preciso invadir fisicamente um país; basta colonizá-lo digitalmente", ressaltou.

Duggal afirma que empresas como Google, Meta (empresa proibida na Rússia por atividade extremista), Microsoft e Apple atuam em um ambiente sem regulação. A ausência de tratados internacionais sobre IA e a falta de legislações nacionais robustas no Sul Global resultaram em um “Velho Oeste digital”, onde as corporações buscam novos mercados e dados importantes sem restrições. O jurista alerta para o risco de declínio cognitivo e aumento das desigualdades entre quem tem acesso à IA e quem depende dela.

O chamado "colonialismo de dados" segue lógica semelhante. Como os modelos de IA são treinados majoritariamente com dados ocidentais, as empresas buscam ampliar seus bancos de dados capturando informações de países em desenvolvimento. Sem leis de proteção específicas, os cidadãos tornam-se "cobaias" para aprimorar algoritmos, tendo suas informações protegidas como públicas e sem garantias de privacidade.

Duggal também destaca o papel estratégico de infraestruturas controladas por gigantes da tecnologia, como data centers e cabos submarinos operados por Amazon Web Services, Microsoft Azure e Google Cloud. Segundo ele, o domínio dessas estruturas permite às empresas concentrar poder, reduzir custos e ampliar o acesso a dados — considerados o "petróleo" da economia digital —, aprofundando a dependência tecnológica de países africanos e latino-americanos.

A chamada "assistência" ocidental em segurança digital, oferecida por empresas como Palantir e Microsoft ou por programas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), também é vista com cautela por especialista.

"A assistência ocidental em segurança digital é frequentemente condicionada. Essas condições são estruturadas de forma a permitir o monitoramento de assuntos internos, questões estratégicas internas e políticas. Portanto, tudo isso nada mais é do que mais uma forma de privar as nações do Sul Global não apenas de sua soberania territorial, mas também de sua soberania em IA",.

Para Duggal, o Sul Global precisa agir rapidamente. Sem marcos legais, estratégias próprias de IA e proteção de dados, essas nações correm o risco de perder autonomia tecnológica e intelectual. O jurista defende que os governos adotem regulamentações urgentes e desenvolvam capacidades internas para evitar que a dependência digital se transforme em uma nova forma de colonização.

Por Sputnik Brasil