ECONOMIA

Mercado de M&A movimenta US$ 51 bilhões no Brasil e impulsiona empresas a crescer mesmo sem venda

Mentalidade "ready for M&A" ganha força com as empresas médias e impulsiona geração de valor antes de qualquer negociação

Por Roberto Magalhães Publicado em 22/04/2026 às 10:10
Mercado de M&A movimenta US$ 51 bilhões no Brasil e impulsiona empresas a crescer mesmo sem venda Freepik

Campinas, abril de 2026 — Empresas do middle market brasileiro que adotam uma estratégia contínua de preparação para fusões e aquisições (M&A) têm ampliado seu valor e reduzido riscos operacionais, mesmo sem intenção imediata de venda. Em um cenário em que o mercado de M&A no Brasil movimentou cerca de US$ 51 bilhões em 2025, com crescimento de 8% em relação ao ano anterior, segundo a Bain & Company, cresce o número de companhias que estruturam seus negócios para nunca perderem valor. A Helping Hand, consultoria especializada em M&A e preparação de empresas para venda, avalia o cenário.

Segundo o fundador e CEO da Helping Hand, Lucas Mendes, a mudança de mentalidade altera diretamente o posicionamento das empresas no mercado. “Empresas que não se preparam para M&A acabam sendo avaliadas pelo risco que não controlam. Quando você estrutura seu negócio com governança, previsibilidade e clareza financeira, você deixa de ser uma operação e passa a ser um ativo estratégico”, afirma.

O movimento acompanha a evolução do mercado global de fusões e aquisições, que atingiu US$ 4,9 trilhões em 2025, o segundo maior volume da história, impulsionado principalmente pelos setores de tecnologia, que cresceu 77% em valor, manufatura avançada (+40%) e serviços financeiros (+57%), também de acordo com a Bain & Company. No Brasil, foram registradas 1.644 transações no período, com alta de 5% no volume de operações e 6% no capital mobilizado na comparação com 2024, segundo o TTR Data.

No middle market, o avanço foi ainda mais expressivo. Empresas com faturamento entre R$ 20 milhões e R$ 500 milhões registraram crescimento de 10,1% nas operações em 2024, sendo que 65% das transações envolveram valores abaixo de R$ 50 milhões, conforme levantamento da Value Capital. São Paulo concentrou 52% dos negócios realizados no país, reforçando a centralidade do estado no ecossistema de M&A nacional, de acordo com a PwC Brasil.

Apesar do crescimento, a falta de preparo ainda compromete a efetividade das operações. Uma análise da Fortune, baseada em mais de 40 mil transações ao longo de quatro décadas, aponta que entre 70% e 75% dos negócios de M&A no mundo não atingem os objetivos esperados. Entre os principais fatores estão falhas na integração cultural, superavaliação de ativos, problemas de governança e inconsistências na due diligence.

No contexto brasileiro, especialmente no middle market, os riscos se concentram em fragilidades estruturais recorrentes. Entre elas estão a baixa qualidade das informações contábeis, com DREs não auditadas que podem gerar divergências de até 30% no cálculo do EBITDA; a existência de passivos trabalhistas e tributários não contabilizados; e a alta concentração de receita, com clientes únicos representando mais de 40% do faturamento. Esses fatores costumam pressionar o valuation ou até inviabilizar negociações.

Diante desse cenário, a preparação para M&A passa a ser incorporada como modelo de gestão contínuo. De acordo com o National Center for the Middle Market (NCMM), empresas consideradas “M&A-ready” apresentam competências como governança estruturada, controle profissionalizado do capital de giro, estratégias de retenção de talentos, sistemas digitais e cibersegurança, contabilidade auditada, planejamento estratégico documentado, redes de relacionamento e processos operacionais eficientes.

Na prática, essa abordagem também corrige erros comuns no middle market, como a dependência excessiva do fundador nas decisões, estruturas societárias desatualizadas, ausência de acordos de sócios formalizados e o tratamento do M&A como um evento isolado. “Quando o M&A deixa de ser uma corrida de última hora e passa a ser um processo contínuo, a empresa ganha eficiência, reduz custo de capital e amplia suas opções estratégicas, seja para crescer, captar ou vender”, conclui Mendes.