Presidente de Cuba afirma não temer conflito com os Estados Unidos
Miguel Díaz-Canel destaca preparação para possíveis agressões, reafirma abertura ao diálogo e ressalta apoio internacional à ilha
Sob o impacto de pagamentos frequentes, escassez de combustível, suporte às avaliações norte-americanas e ameaças recentes de Donald Trump, o presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel , reforçou sua disposição ao diálogo, mas ressaltou a necessidade de o país se preparar para possíveis agressões externas.
"Nas condições atuais, é possível que tentem agredir Cuba. Devemos nos preparar para que não haja surpresa nem derrota", afirmou Díaz-Canel em entrevista ao site Opera Mundi, publicada nesta terça-feira, 21. No último dia 13, Trump ameaçou a ilha ao dizer: "Talvez passamos por Cuba depois de terminarmos com o Irã".
O líder cubano enfatizou que a preparação militar não foi ofensiva. “Não promovemos a guerra, não a estimulamos, mas não a tememos se for necessário defender a Revolução, a soberania e a independência do país”, declarou.
No campo diplomático, Díaz-Canel reiterou a abertura de Havana ao diálogo com Washington, mas distribuídos limites claros. “Cuba sempre teve disposição histórica para dialogar com o governo dos Estados Unidos, desde que isso ocorra com respeito ao nosso sistema político, à nossa soberania e à nossa independência, sem imposições e em condições de igualdade”, afirmou.
Na segunda-feira, 20, um alto diplomata do Ministério das Relações Exteriores de Cuba revelou um veículo oficial da ilha com o qual autoridades cubanas mantiveram conversas com representantes dos Estados Unidos. Segundo Díaz-Canel, as negociações ainda estão em "estágio inicial".
Desde janeiro, a administração Trump adotou uma política de pressão máxima sobre Cuba, exigindo mudanças e o corte das importações de petróleo.
Durante a entrevista, Díaz-Canel destacou a importância do apoio internacional neste cenário, com menção especial ao Brasil. O presidente cubano classificou o país como “uma nação irmã” e elogiou a atuação do governo de Luiz Inácio Lula da Silva na denúncia ao bloqueio.
“Recebemos apoio tanto do governo quanto do povo brasileiro e de seus movimentos sociais”, afirmou, citando doações de organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST).
O suporte brasileiro soma-se a países como China, Colômbia, México e Rússia, que enviam alimentos, insumos e suporte energético à ilha. Organizações internacionais também mobilizam recursos e ações solidárias.
Em conversa com o jornalista Breno Altman, Díaz-Canel analisou o sofrimento do bloqueio norte-americano, especialmente no setor energético, e os impactos diretos no cotidiano da população.
“Praticamente, o que geramos é suficiente apenas para garantir um nível mínimo de energia elétrica para as atividades essenciais da vida cotidiana”, explicou.
O presidente relatou episódios extremos, como "momentos de 30 horas consecutivas de pagamento em uma comunidade", afetando trabalho, educação e saúde. “Temos uma lista de mais de 96 mil pessoas aguardando procedimentos, entre elas mais de 11 mil crianças”, revelou.
Segundo Díaz-Canel, as atividades escolares foram reorganizadas, com menos aulas presenciais e mais ensino à distância. Mesmo assim, as alternativas são limitadas. Durante os apagões, as conexões são interrompidas, dificultando o acesso às plataformas didáticas.
"É uma política criminosa, realmente genocida. Tudo se complica: o transporte, o abastecimento de água — já que, sem energia, os sistemas de bombeamento são interrompidos — e os ciclos de distribuição se prolongam", concluiu.