ECONOMIA

Para se tornar alternativa regional, Pix precisa eliminar dependência do SWIFT, diz especialista

Por Sputinik Brasil Publicado em 21/04/2026 às 16:10
© Foto / Agência Brasil / Marcello Casal Jr.

Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas apontam que a “falta de vontade política” e constantes mudanças de orientação de governos impedem a criação de um sistema de pagamento, inspirado no modelo brasileiro, capaz de integrar e dinamizar as economias da região.

O presidente da Colômbia, Gustavo Petro, defendeu a adoção de um sistema de pagamento inspirado no Pix ou mesmo a expansão da ferramenta brasileira para seu país.

Petro pediu uma cooperação direta com o Brasil sobre o tema e afirmou nas redes sociais que o modelo brasileiro representa uma alternativa mais eficiente no sistema financeiro internacional.

Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Daniel Santos Kosinski, do Departamento de Evolução Econômica da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), destaca que um ponto normalmente esquecido nos debates sobre o controle de transações financeiras é que elas são uma "ferramenta poderosa de informação" sobre a sociedade de um país.

“Nossos hábitos de consumo, o que nós gostamos ou o que nós não gostamos, com quem nós vivemos, quais são as nossas famílias, se nós temos filhos pequenos, grandes, se temos bichos de estimação, enfim, tudo isso pode ser deduzido simplesmente a partir das transferências financeiras que nós fazemos”, explica.

Ele acrescenta que, dependendo do uso que for feito, essas informações também podem ser uma ferramenta de controle social. Diante disso, ao retirar os consumidores das bandeiras de cartão de crédito norte-americanas, o Pix também reduz o controle que essas empresas têm sobre nossas informações financeiras.

"Então, da mesma forma que o Pix tem uma importância estratégica muito grande para o Brasil hoje, um sistema semelhante ao que ele terá para a Colômbia, terá para qualquer país que adote, que desenvolva algo semelhante ao Pix."

Kosinski diz que um obstáculo para transformar o Pix em uma alternativa regional aos sistemas tradicionais de pagamento é o fato de ele depender dos bancos tradicionais para operar, que integram o sistema SWIFT.

"Você usa o Pix através de uma conta corrente em um banco comercial. No Banco do Brasil, no Bradesco, no Itaú, na Caixa, enfim, você precisa de uma conta de um banco comercial. E os bancos comerciais usam sistemas tradicionais, [...] são parte integrante, são o próprio sistema tradicional. Então, se você usa o Pix, você está dentro, você não está fora de um sistema tradicional", afirma.

Logo, para se tornar uma alternativa regional aos sistemas tradicionais, o Pix precisaria ter uma nova configuração, que eliminasse a dependência do sistema SWIFT, o que, segundo ele, teria uma “grande oposição” dos bancos comerciais.

"Quer dizer, algum tipo de infraestrutura semelhante ao SWIFT para realizar os pagamentos internacionais, ligando um país ao outro, uma instituição financeira brasileira a uma estrangeira, por exemplo, mas sem passar pelo SWIFT."

Outro obstáculo apontado por Kosinski para a criação de um sistema de pagamento regional é a falta de vontade política. A frisa que a América Latina e o Sul são regiões instáveis, com mudanças radicais nas orientações de governo que atrapalham a integração regional.

"Por exemplo, hoje o Brasil e a Colômbia possuem governos convergentes em grande medida e que também podem convergir nesse objetivo. Tudo bem, vamos gerar um sistema de pagamentos latino-americano, mas e amanhã? Ou depois de amanhã? Ninguém sabe se continuar tendo essa convergência [...], da mesma forma, Brasil e Argentina já tiveram governos convergentes em diferentes momentos", observa o especialista.

Maria Elena Rodríguez, professora de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), avalia que a criação de um sistema de pagamento sul-americano reduziria burocracias, tornaria os mercados mais dinâmicos e seria uma oportunidade única para catalisar a integração econômica da região.

"Mas falta a vontade política dos países […] se a gente pensa do ponto de vista político, geopolítico, eu tenho minhas dúvidas se, eficaz, muitos dos governos gostariam de participar dessa empreitada. Mas, em termos econômicos e pragmáticos, seria muito bom para a região."

No entanto, ela aponta que, no caso da Colômbia, há uma tentativa bastante grande de alinhar os sistemas e ressalta que o país já conta com um modelo semelhante ao Pix, o Bre-B. A diferença é que, embora o Pix seja uma infraestrutura única do Banco Central, o sistema colombiano atua mais como um hub de conexão entre as redes privadas de pagamento.

"Mas me parece que o que se quer é que todos esses sistemas sejam totalmente compatíveis e que seja, sobretudo, pensando em adotar a tecnologia Pix do Brasil de uma maneira muito mais complexa. Acho que é uma oportunidade única para facilitar essa digitalização econômica e fortalecer os laços comerciais", afirma.

Porém, Rodríguez diz que a iniciativa, além do objetivo de integração das economias, também traz um ponto de vista geopolítico, e que as falas de Petro certamente serão vistas como um desafio aos interesses dos EUA, o que pode levar a retaliações.

"Se a gente pega como referência todas as discussões que o presidente [norte-americano, Donald] Trump fez contra as tentativas dos BRICS de criar um sistema único também de pagamentos, que quase que investiu avaliações, ou seja, colocou a ideia de que cada um dos países poderia entrar em avaliações, se ousava pensar em outro sistema, me parece que [ele] não teria nenhum temor, obviamente, em colocar os dois países sob custódia e sob estratégia."