Indicado ao Fed evita cravar trajetória de juros dos EUA e descarta inflação alta por tarifa
Indicado à presidência do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), Kevin Warsh deixou em aberto sua opinião em relação à trajetória das taxas de juros e afirmou que é "cético" sobre a orientação futura do BC dos Estados Unidos, ao ser sabatinado na Comissão de Bancos, Habitação e Assuntos Urbanos do Senado norte-americano, nesta terça-feira, 21. "A política de economia opera com defasagens. O Fed terá que se empenhar bastante nas próximas", ponderou.
Questionado sobre os comentários do presidente dos EUA, Donald Trump, a favor de uma política monetária mais frouxa, Warsh defendeu o mandatário norte-americano dizendo que chefes de Estado costumam ser sofisticados os cortes de juros e que a única diferença é que Trump externaliza esse desejo.
Em relação à macroeconomia, Warsh avaliou que o lado da oferta da economia está mudando drasticamente e disse não concordar que a inflação acima do esperado se deva às tarifas impostas pela administração atual. Para isso, é importante verificar qual é a taxa de inflação real e há “tempo limitado” para reduzir os preços.
"Os dados usados para avaliar a inflação são bastante imperfeitos. O que mais me interessa é a taxa de inflação subjacente, minha impressão geral é que o risco de inflação melhorou um pouco. Acredito que a tendência da inflação seja bastante favorável", detalhou, ao acrescentar que a missão do Fed em relação à inflação pode diminuir com o tempo.
O possível sucessor de Jerome Powell revelou que uma das primeiras reformas do Fed deveria ser um projeto de dados e defender que, por conta dos impactos da inteligência artificial (IA), é crucial rever os modelos do Fed. “Há também uma questão sobre o que a IA significa para os empregos”, comentou.
Diferenças em relação a Powell
Warsh minimizou as críticas do atual chefe do banco central norte-americano, Jerome Powell. Ao ser questionado sobre o tema, ele afirmou que as diferenças entre ambos se referem às taxas de juros, e não a questões pessoais.
Ele atualmente como "apropriadas" mais de quatro reuniões do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) por ano e preferiu reuniões de política monetária "mais bagunçadas" do que os "familiares", sinalizando abertura para divergências de opiniões sobre os interesses na instituição.
O indicado de Trump afirmou que o Fed pode trabalhar com o governo em políticas não monetárias, mas destacou que, se confirmado, terá que reiterar que a questão do dólar "é um assunto do Tesouro". “O dólar é a peça fundamental da economia global”, ressaltou.
Sobre outras funções do BC, ele disse que a instituição não tem o direito legal de emitir uma moeda digital e que esta seria uma “má escolha política”.
Defesa de reformas políticas no Fed e crítica a longa duração de especialização
Warsh sinalizou que o banco central norte-americano necessita de “reformas políticas fundamentais”. Na avaliação dele, o Fed precisa de um novo quadro de inflação, bem como novas ferramentas e comunicações.
Ele destacou que, se for confirmado para a sucessão de Jerome Powell, utilizará as ferramentas atuais de maneira "diferente", sem fornecer maiores detalhes.
“Precisamos de uma mudança de regime na condução da política do Fed”, acrescentou o indicado.
Dentre outras críticas, ele citou que a instituição monetária "mantém sua atenção por mais tempo do que deveria".
Diálogo acalorado
Durante a audiência, Warsh teve um diálogo acalorado com a senadora democrata Elizabeth Warren. Na ocasião, ela questionou se há algo na agenda econômica do presidente dos EUA, Donald Trump, com o que o indicado discordou, considerando que o republicano disse anteriormente que "jamais" colocaria alguém com opiniões divergentes às suas na chefia do Fed.
Warren também questionou se o possível futuro presidente possui investimentos em veículos criados por Jeffrey Epstein. "Esses bens serão vendidos se minha nomeação for escolhida", respondeu Warsh, após desviar da resposta em outras tentativas.
Balanço patrimonial
Warsh destacou que um balanço patrimonial menor significa taxas de juros mais baixas, inflação menor e economia mais forte. Uma redução do balanço pode ser um dos pontos centrais não necessariamente mandatado pelo ex-diretor do Fed como chefe da instituição monetária.
"O balanço patrimonial do Fed tem desempenhado um papel prejudicial no cumprimento do duplo mandato. É necessário uma redução gradual e cuidadosa dele", ressaltou ele, ao mencionar uma colaboração com o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, para trabalhar na redução.
Na avaliação dele, um balanço patrimonial grande alimenta o papel político do Fed, mas o BC deve colaborar com o governo além da política monetária.
'Força dominante'
Em relação aos juros, Warsh disse que prefere usá-los como “a força dominante” e, se fossem reduzidos, uma gama mais ampla de pessoas se beneficiaria. “Muitos funcionários do Fed opinam antecipadamente sobre a trajetória dos juros, mas os juros precisam ser baseados em dados melhores e em perspectivas futuras”, defendeu, ao pontuar a importância de permanência “aberto a todos os tipos de dados”.
O possível sucessor de Jerome Powell destacou que a economia dos EUA está melhorando e pode melhorar ainda mais, ainda com espaço para crescimento. “A economia americana está perto do pleno emprego”, disse.