Dia das Meninas nas Tecnologias da Informação e Comunicação: projeto METIS mostra por que a cibersegurança precisa das mulheres
Ação trabalha com meninas de escolas públicas da Região Metropolitana de Belo Horizonte para ampliar a presença feminina no setor em que menos de um em cada quatro profissionais é mulher
Menos de 25% dos postos de trabalho em cibersegurança no mundo são ocupados por mulheres. No Brasil, o número é ainda menor. Dados do Observatório Softex (W-Tech 2025) mostram que elas somam apenas 17% da força de trabalho na cibersegurança especificamente. Ao mesmo tempo, o país enfrenta um déficit estimado de 750 mil profissionais na área, de acordo com dados de 2024 da Fortinet.
Celebrada anualmente em 23 de abril, a data dedicada às Meninas nas Tecnologias de Informação e Comunicação (TIC) foi instituída pela ONU para inspirar e mobilizar meninas e mulheres a considerarem carreiras no setor de tecnologia, como as ações do projeto METIS, que incentiva meninas e mulheres a explorar e avançar na segurança cibernética.
O projeto coordenado pela professora Michele Nogueira, doutora em Ciência da Computação pela Universidade de Sorbonne e docente da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), trabalha com 35 alunas de sete escolas públicas de Belo Horizonte e Região Metropolitana, do Ensino Fundamental ao Médio, oferecendo formação prática em cibersegurança, mentorias, rede de contatos e conexão com o mundo profissional.
O nome não é por acaso. METIS é a deusa grega da proteção e foi escolhida simbolicamente para a iniciativa que acredita no potencial feminino para transformar a cibersegurança. “As mulheres têm preocupação intrínseca com proteção, por isso, trazem perspectivas diferenciadas e necessárias para construção de soluções de cibersegurança. Nosso objetivo é mudar a realidade que nós, cientistas em STEM, enfrentamos hoje, quando estamos em reuniões com colegas e somos minoria sempre. Às vezes uma mulher, outras duas entre tantos homens," explica Michele Nogueira.
Atuação do projeto METIS
Apoiado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o METIS tem duração de três anos e atua em múltiplas frentes: conscientização sobre as possibilidades de carreira em cibersegurança, desenvolvimento de habilidades técnicas, formação de redes de mentoria e parcerias estratégicas, promoção da inclusão social por meio de uma profissão de alta demanda e remuneração diferenciada, e ainda influência na formulação de políticas públicas que incentivem a participação feminina no setor.
Para Michele Nogueira, o METIS busca não só aumentar o número de profissionais, mas também mudar a cultura de um setor historicamente masculino. "Eu sempre tive uma personalidade forte, mas em algumas situações eu me resguardava, me diminuía onde eu deveria, na verdade, falar. Fui aprendendo ao longo do convívio, me posicionando. Eu entendo que seja desconforto para muitas meninas e mulheres, até mesmo pela forma de atuação de alguns homens e também de mulheres, infelizmente. Muitas vezes nem eles mesmos percebem o que estão fazendo," conta a coordenadora do projeto
O projeto também conecta as jovens ao ecossistema científico de ponta: o recém-criado Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Inteligência Artificial para Cibersegurança (INCT-IACiber), com sede na UFMG e atividades iniciadas em outubro de 2025, integra-se às ações do METIS. A missão do instituto, avançar no conhecimento entre Inteligência Artificial e Cibersegurança e formar profissionais de excelência, dialoga diretamente com os objetivos do projeto.
"O projeto não só fortalece a cibersegurança, mas também promove um impacto positivo na sociedade, mostrando que a inclusão é um caminho essencial para a inovação e o progresso," finaliza Michele Nogueira.
Sobre a pesquisadora Michele Nogueira
Michele Nogueira é cientista da computação atuando nas áreas de redes de computadores, segurança de redes e privacidade dos dados. Tem doutorado em Ciência da Computação pela Sorbonne Université - UPMC/LIP6, Paris, França (2009) e realizou Pós-doutorado na Universidade Carnegie Mellon (CMU), Pittsburgh, EUA, com bolsa de Estágio Pós-Doutoral no Exterior CAPES, Programas Estratégicos - DRI.
Foi membro titular do Conselho Nacional de Proteção dos Dados Pessoais e da Privacidade (CNPD) da Autoridade Nacional de Proteção dos Dados Pessoais (ANPD).
É membro sênior da Association for Computing Machinery (ACM) e do Institute of Electrical and Electronics Engineers (IEEE) em reconhecimento à sua liderança e contribuições técnicas e profissionais.
É professora associada do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e é membro permanente do programa de Pós-graduação em Ciência da Computação.
Dedica-se a pesquisas voltadas à cibersegurança e à resiliência de redes e comunicação com aplicações em vários setores da sociedade.