A cidade das pessoas polarizadas
Existe uma pequena cidade onde quase todos os moradores são polarizados.
Mas, não quero dizer que possuem energia estática saindo da pontas de seus dedos devido a potenciais elétricos distintos, tampouco, porque usam óculos com lentes polarizadas que reduzem o brilho ofuscante em algumas superfícies.
Esses tais moradores são polarizados porque estão absortos em ideologias e “modinhas” políticas do momento, a tal modo de viverem suas tão curtas e “patéticas” vidas procurando alimentar a paixão para com os seus iguais em posições partidárias, e o ódio em relação aos seus “inimigos” que optaram por pensarem diferente deles.
Essas pessoas, usam das redes sociais para mostrarem seus posicionamentos, principalmente, respondendo de maneira bruta e ofensiva aos comentários de desafetos, mesmo que esses posts nada têm de ideológico ou político:
— Nasceu meu filho! Que alegria!
— Nasceu mais um idiota que vai pensar errado igual ao pai idiota!
Ou mesmo, quando a intenção seja a melhor possível, os polarizados não deixam passar em branco:
— Fulano salvou três crianças de um incêndio no centro.
— Só podia ser o fulano da oposição! Se fosse de nosso grupo, teria salvado o triplo de crianças. Bando de incompetentes!
(Observação: só haviam três crianças para serem salvas).
As pessoas polarizadas quase não se encontram nas ruas da cidade, porque quando uma dessas pessoas só vira para a direita numa esquina, a outra só vira para a esquerda nesta mesma esquina.
— Jamais irei andar no lado errado na rua!
Automóveis são encontrados aos montes parados nos cruzamentos, porque o motorista polarizado se recusa a obedecer às placas que informam obrigatório virar à esquerda ou virar à direita. Eles abandonam o carro, mas não seguem pelo caminho “do mal”.
Já houveram casos de mortes, quando algumas pessoas polarizadas tentaram mudar o lado do coração através de cirurgias, por não aceitarem o lado em que o órgão se encontra no corpo humano.
Ultimamente também tem havido muitas ocasiões em que pais polarizados estão deserdando os filhos, por não aceitarem que o herdeiro tenha nascido destro ou canhoto.
Moradores polarizados agora brigam juntamente com os políticos polarizados para que o centro da cidade, não seja mais conhecido como centro. Um grupo quer que se chame Direita; outro grupo quer que passe a se chamar Esquerda. O problema (ou não) é que dependendo de como vai se chamar, o grupo perdedor ameaça ir embora da cidade.
Já o pequeno número de moradores não polarizados acha tudo isso uma idiotice e procuram viver suas vidas numa boa, trabalhando para poder pagar suas despesas, seus boletos e a cervejinha no final de semana. Mesmo tendo que aturar inúmeras babaquices dos conterrâneos “polarizados”.
RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.
Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.