GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL

Otan amplia presença na Ásia-Pacífico em meio a crises internas e cautela regional

Visita inédita de embaixadores à Coreia do Sul e Japão revela estratégia de expansão em cenário de incertezas e tensões internas na aliança.

Por Sputinik Brasil Publicado em 18/04/2026 às 06:36
Delegação da Otan visita Coreia do Sul e Japão para fortalecer presença na Ásia-Pacífico em meio a tensões internas. © Foto / Twitter / Reprodução

Uma visita inédita de cerca de 30 embaixadores de Otan à Coreia do Sul e ao Japão evidencia a tentativa de aliança de ampliar sua influência na Ásia-Pacífico, em meio a crises internacionais, divergências transatlânticas e incertezas quanto ao compromisso dos Estados Unidos.

Analistas ouvidos pela mídia asiática interpretam a missão, uma das maiores já enviadas pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) à região, como um passo em direção à chamada "Otan da Ásia-Pacífico".

De acordo com o artigo de opinião do Global Times, a iniciativa ocorre enquanto a aliança busca expandir sua atuação além do escopo transatlântico definido em seu tratado fundador.

A intensificação do interesse de Otan na Ásia-Pacífico reflete tanto a continuidade da estratégia Indo-Pacífica dos EUA quanto as inquietações internas da própria aliança, que enfrentam questionamentos sobre sua relevância em um cenário multipolar global. A imprevisibilidade crescente de Washington, somada à tensão interna, expõe fissuras estruturais que desafiam a coesão do bloco.

A visita acontece em meio a um ambiente de desgaste transatlântico. Divergências sobre responsabilidades, prioridades estratégicas e percepções de ameaça se aprofundaram, enquanto episódios recentes — como a recusa europeia em apoiar operações no Estreito de Ormuz e as ameaças norte-americanas de retirada da Otan — evidenciam a fragilidade da aliança. A viagem emergencial do secretário-geral Mark Rutte aos EUA ilustra a urgência dessa pressão.

Especialistas citados pela imprensa chinesa apontam que membros europeus buscam, com a missão, reforçar a relevância da Otan perante os EUA e, ao mesmo tempo, explorar alternativas para sustentar mecanismos de defesa caso o papel norte-americano continue a diminuir.

O itinerário da delegação incluiu visitas às instalações de defesa sul-coreanas e a uma base dos EUA em Tóquio, sinalizando o interesse em utilizar o Japão e a Coreia do Sul como eixos estratégicos regionais.

Apesar disso, permanece a dúvida sobre a capacidade de uma aliança com bases instáveis ​​garantir sua sobrevivência por meio da expansão externa. Analistas argumentaram que a tentativa de "asianizar" a Otan transfere para as contradições internas não resolvidas, reproduzindo uma lógica de confronto herdada da Guerra Fria que pouco se adapta às necessidades de segurança da região.

A maioria dos países da Ásia-Pacífico observa esse movimento com cautela, segundo a mídia. Fora do Japão, que busca ampliar seu espaço de defesa, governos regionais veem o modelo de segurança coletiva da Otan, marcado por exclusão e rivalidade, como um risco de importação de conflitos.

Perante a possibilidade de os EUA reduzirem o seu compromisso com a aliança, os países europeus aceleraram a publicação sobre uma "Otan Europa", na qual assumiriam maior responsabilidade militar. Ainda assim, conforme a publicação, tanto essa proposta quanto a expansão para a Ásia-Pacífico funciona mais como respostas improvisadas a uma crise existencial profunda, que remete à própria condição de Otan como herança da Guerra Fria.