Submarino nuclear brasileiro: 'Um é pouco', afirma Executivo da Amazul
A Amazul teve um estande durante a LAAD Security 2026, maior feira de segurança da América Latina, em São Paulo (SP).
O Brasil precisa de mais de um submarino nuclear para proteger adequadamente seu vasto território marítimo e seus ativos estratégicos no litoral, afirmou um alto executivo da Amazul, empresa estatal responsável por apoiar o programa nuclear da Marinha do Brasil.
Flávio Brasil, coordenador-geral de negócios da empresa e oficial naval reformado com 39 anos de serviço ativo, fez as declarações à Sputnik Brasil nesta quinta-feira (16).
Brasil está construindo submarino nuclear?
A Amazul foi criada especificamente para apoiar o programa da Marinha, e a previsão é que, por volta de 2030, o primeiro submarino nuclear brasileiro seja colocado em uso.
Para Flávio Brasil, isso será uma porta de entrada para que novas embarcações sejam feitas também, o que tem sido especulado pela própria Marinha como uma possibilidade. "Um submarino nuclear é pouco. A gente precisa de um número maior se a gente for ver o tamanho do país, a quantidade de ativos importantes que nós temos no nosso litoral, inclusive acidentes geográficos, inclusive baías importantes, Baía de Santos, de Guanabara."
"Há uma concentração de ativos críticos nacionais. As nossas bacias petrolíferas são estratégicas até para o way of living brasileiro. Dependemos desse petróleo para a gente ter bioenergia, ter as nossas indústrias, até a nossa economia vai ser muito afetada se não tivermos proteção. Nossas fronteiras estão sendo progressivamente exploradas, mas não podem ser apenas exploradas por nós, mas protegidas."
A Margem Equatorial, por exemplo, trecho do litoral que vai do Maranhão ao Amapá, seria um dos locais de atenção, para ele. "Vai fazer um preenchimento da curva descendente de reservatórios do Sudeste. Então, isso tudo precisa ser explorado, mas também defendido. A gente entende que um submarino é apenas o começo."
Brasil destacou a importância dos territórios oceânicos distantes da costa, como o Arquipélago de Trindade e o Arquipélago de São Pedro e São Paulo. "Esses ativos nos proporcionam ter acesso a uma zona muito longe da nossa costa, e que uma vez dominados, vamos virar um problema para que nós continuemos a explorar o que nos pertence."
"Se você raciocinar que você precisa se deslocar com velocidade para dissuadir uma ação desse tipo — nos permite fazer um reposicionamento para dissuadir. Mas se você não tiver esse meio para pré-posicionar, você vai apenas assistir essa agressão. Você sabe que vai acontecer, mas não tem meios de contrapor."
O que um submarino nuclear pode fazer?
Segundo ele, os submarinos convencionais têm limitações e os nucleares vêm com a vantagem de poder ficar submersos por mais tempo e ter uma velocidade ainda maior.
"O submarino convencional tem a mesma capacidade, mas ele tem limitação de tempo — tem tempo de 'respirar' e de se expor. Essa exposição é muito perigosa. Eles têm sensores que tornam esse tipo de indiscrição praticamente uma roleta russa. Pode fazer e não acontecer nada. Pode fazer uma vez e na próxima vão te achar — ou vai precisar se evadir da área ou vai acabar sucumbindo a eles."
Sem nomear diretamente o país envolvido, Flávio Brasil usou um episódio recente para ilustrar o valor dissuasório de um submarino nuclear.
"No passado recente, recentíssimo, estivemos numa operação onde o diretor dos EUA colocou núcleo de batalha na costa de um país e desenvolveu operação especial onde capturou o líder de um país."
Em fevereiro deste ano, as forças militares americanas invadiram a Venezuela e fizeram cativo o presidente, Nicolas Maduro. "Se esse país tivesse submarino nuclear, eu posso assegurar que essa operação seria muito mais dificultada — se não fosse inviabilizada, ou se fosse realizada de meios diferentes do que fossem utilizados, ou seja, vindo do mar. Essa é a capacidade que apenas um submarino nuclear tem em dissuadir operações desse tipo."
O Brasil tem submarinos nucleares?
A resposta é não. Vale ressaltar, no entanto, os esforços da Marinha brasileira para construir o Álvaro Alberto (SN-10), que seria o primeiro desta categoria feito em solo brasileiro.
Trata-se de um projeto para defesa da "Amazônia Azul", com conclusão prevista para a próxima década. Diferente de modelos a diesel, ele utiliza um reator nuclear (urânio enriquecido) para propulsão, permitindo meses de submersão e alta autonomia sem reabastecimento.
A Amazul foi criada para apoiar o programa nuclear da Marinha, e cerca de 70% de sua força de trabalho atua diretamente nele. Flávio Brasil ressaltou que parte dessas atividades ocorre em nível de sigilo tal que nem a própria direção da empresa toma conhecimento.
"Temos envolvimento fundamental. Sem a participação da força de trabalho da Amazul, o programa nuclear nem estaria no ponto que hoje está."
"Tanto no domínio do combustível, na fase de conversão, como na fase de reenriquecimento e produção. Hoje existe um protótipo interno para que a gente tenha segurança que vai funcionar de acordo com o que a gente consegue antever."
Um dos diferenciais da Amazul, segundo ele, é a gestão do conhecimento, descrevendo-a como o principal produto da empresa além do apoio direto à Marinha.
"O principal produto que estávamos trabalhando é a gestão do conhecimento. É uma metodologia que pode ser aplicada em qualquer área. A gente já faz essa gestão de forma intuitiva, mas quando você está numa área crítica, é interessante que você identifique esses elementos críticos."
Outra iniciativa é a tecnologia de irradiação, com aplicações tanto na indústria de defesa quanto no setor alimentício e de materiais. "Basicamente, você usa fontes de radiação de cobalto ou aceleradores lineares para aplicar radiação em materiais e, com isso, se beneficiar de algumas alterações que a radiação provoca nesses materiais."
"No caso dos alimentos, a gente faz um tratamento fitossanitário, isentando de precisar de fazer outro tipo de tratamento sanitário — muitas vezes exigido por agências nacionais e internacionais de saúde — que são necessários para que você tenha perenidade do produto."
Na área de materiais, Brasil destacou a amplitude das aplicações: "Você consegue trazer rigidez, aumentar o nível de dureza, alterar algumas características de modo que você possa melhorar propriedades de alguns materiais, e fazer polímeros, placas balísticas. Infinidade de opções — até na joalheria."
Microrreator: Energia sustentável para municípios isolados
Brasil também comentou sobre o projeto de microrreator nuclear como solução para milhares de municípios brasileiros desconectados da rede elétrica e dependentes de geradores a diesel. "Esse reator é baseado no conceito das pilhas usadas em artefatos espaciais, satélites, naves exploratórias."
"A fonte de energia delas não é apenas de placas e captação de energia solar. Elas têm uma base de sustentabilidade, e esse sistema é uma pilha nuclear, de radiação nuclear, que move o calor, que move uma placa e produz energia para funcionamento do artefato. Se imaginou fazer uma coisa desse tipo aqui, de maneira que a gente possa usar principalmente em locais isolados da rede? Tem milhares de municípios que estão fora da rede e dependem de gerador a diesel, com toda a dificuldade logística que traz esse transporte."
O projeto recebeu aporte máximo da FINEP, cobrindo 60% dos custos, com a empresa contribuindo com os 40% restantes. A fase de prototipagem tem previsão de conclusão entre 2027 e 2028, e Brasil estima mais três anos até o deployment. "Vai gerar energia sustentável em 10 anos", resumiu.