ENGENHARIA AEROESPACIAIS

Projeto de foguete hipersônico da FAB coloca o Brasil na elite tecnológica global, avaliam analistas

Publicado em 16/04/2026 às 17:16
© Foto / DCTA / IEAv

Em entrevista à Sputnik Brasil, engenheiros aeroespaciais afirmam que o Projeto 14-X está ligado a um movimento mais amplo do Brasil de fortalecimento da base tecnológica e industrial de defesa ao lado da retomada da Avibras por meio de capital privado e da entrega do primeiro caça F-39 Gripen.

A Força Aérea Brasileira (FAB) está trabalhando em um projeto que mira revolucionar a inovação aeroespacial do Brasil e consolidar a posição do país na elite tecnológica global.

Liderado pelo Instituto de Estudos Avançados (IEAv) do Departamento de Ciência e Tecnologia Aeroespacial (DCTA) da FAB, o Projeto Estratégico de Propulsão Hipersônica 14-X (PROPHIPER 14-X) desenvolve um foguete hipersônico capaz de atingir dez vezes a velocidade do som. Para atingir esse nível, o foguete será equipado com um motor scramjet, que permite alcançar uma velocidade Mach 10, de 12 mil quilômetros por hora.

Para servir de lançador do foguete hipersônico surgiu o projeto RATO-14X (Rocket Assisted Take-Off), um foguete de decolagem que impulsionará o 14-X até 30 quilômetros de altitude, onde o scramjet assumirá o controle. Esse lançador deve ter cerca de 14 metros e 15 toneladas. Ainda em fase experimental, o 14-X não tem planos de produção replicada ou integrada com sistemas de armamentos reais, mas seu desenvolvimento é aguardado para 2030.

À Sputnik Brasil, Rafael Gigena Cuenca, professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), no campus Joinville, explica que a propulsão por scramjet é a fronteira tecnológica da propulsão de aeronaves hipersônicas que hoje são viáveis com os motores foguetes.

"Por isso, hoje avançar nessa tecnologia permite no futuro ao Brasil desenvolver essas aeronaves com maior independência e soberania, principalmente porque esses motores têm potencial aplicação militar."

Ele acrescenta que a importância estratégica do projeto está no uso de defesa militar na construção de sistemas de lançamento de sistemas balísticos, a exemplo dos armamentos que hoje são usados na guerra do Irã.

"Um motor desse tem a previsão de melhorar os futuros armamentos pois demandam menor consumo de combustível", afirma o engenheiro aeroespacial.

Para o professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC) Annibal Hetem, o 14-X representa um salto qualitativo na capacidade tecnológica do Brasil na área aeroespacial. À reportagem, ele diz que desenvolver um veículo hipersônico com motor scramjet coloca o Brasil em um grupo extremamente restrito de nações que dominam essa fronteira da engenharia.

"O veículo em desenvolvimento é um demonstrador, ou seja, sua função é demonstrar o quanto da nova tecnologia está dominada. Além disso, o 14-X também impulsiona inovação em múltiplas frentes, como aerodinâmica em regime hipersônico, materiais resistentes a altas temperaturas, controle de escoamentos compressíveis e integração entre estrutura e propulsão", observa Hetem.

Ele acrescenta que os avanços alcançados no projeto não ficam limitados ao setor militar ou espacial, eles irradiam para universidades, centros de pesquisa e indústria, elevando o nível técnico nacional. Na prática, avalia o especialista, o projeto posiciona o Brasil como um ator relevante no desenvolvimento de tecnologias críticas para o futuro do acesso ao espaço e de veículos de altíssima velocidade.

"Esse projeto é um catalisador de conhecimento, formação de pessoal altamente qualificado e autonomia tecnológica, exatamente o tipo de iniciativa que redefine o patamar de inovação de um país."

Hetem afirma que a tecnologia hipersônica envolve aeronaves que voam acima de Mach 5 e é estratégica porque muda o jogo em três frentes: tempo, alcance e controle. Ele destaca que esses novos veículos reduzirão drasticamente o tempo entre lançamento e chegada. Em aplicações militares, isso significa capacidade de resposta quase imediata e menor janela de reação do adversário.

"Por outro lado, nas aplicações civis, abre caminho para transporte ultrarrápido e acesso mais eficiente ao espaço. Do ponto de vista de operação, os motores como scramjet usam o oxigênio do ar, o que quando se compara a um foguete, significa carregar menos massa de oxidante, o que aumenta a eficiência em voo atmosférico."

Além disso, ele aponta que o projeto abre a possibilidade de projetar futuros veículos que combinem a propulsão de avião com a de foguete, com trajetórias mais flexíveis. No entanto, Hetem pondera que, do ponto de vista de domínio tecnológico de ponta, o projeto envolve problemas críticos: escoamento compressível, combustão supersônica, materiais a altíssimas temperaturas, controle em regime extremo.

"Quem domina isso domina uma cadeia de conhecimento que impacta aeroespacial, defesa, materiais avançados e computação de alto desempenho", resume o especialista.

Ele enfatiza que ao lidar com fenômenos extremos, como os escoamentos compressíveis em altíssimas velocidades, combustão supersônica e aquecimento aerodinâmico severo, o projeto força o desenvolvimento de competências avançadas em modelagem numérica, materiais de alta temperatura, instrumentação e validação experimental.

"Esse avanço não fica isolado: ele se difunde para universidades, centros de pesquisa e indústria, elevando o nível técnico nacional e formando recursos humanos altamente qualificados. Com isso, cria-se uma base industrial capaz de atuar em cadeias de alto valor agregado, com impactos que vão além do setor aeroespacial."

Porém, a capacidade do projeto de colocar o Brasil na elite tecnológica global está diretamente ligada à sua continuidade. Segundo Hetem, sem campanhas sistemáticas de testes e evolução progressiva dos protótipos, o projeto corre o risco de permanecer apenas como demonstrador tecnológico e nada mais. Ele ressalta que, quando sustentado e com continuidade, o 14-X contribuirá diretamente para a soberania nacional ao reduzir a dependência externa em tecnologias estratégicas e ao garantir domínio sobre conhecimento sensível.

"Também fortalece a capacidade de dissuasão, ao incorporar tecnologias de difícil interceptação e alto desempenho. Em termos práticos, isso amplia a autonomia decisória do país em cenários críticos e aumenta seu poder de negociação internacional. O 14-X não é apenas um projeto tecnológico, mas um vetor estruturante de soberania, inovação e posicionamento estratégico do Brasil no cenário global."

Hetem frisa que "o 14-X não é um projeto isolado", mas um movimento mais amplo de fortalecimento da base tecnológica e industrial de defesa do Brasil, ao lado de iniciativas como a retomada da Avibras por capital privado e a incorporação do F-39 Gripen, desenvolvido com a Saab.

Ele avalia que esses três eventos se complementam e estruturam o futuro do desenvolvimento tecnológico. O Gripen representa um salto na capacitação nacional em integração de sistemas complexos, engenharia aeronáutica avançada e processos de certificação, com transferência efetiva de tecnologia e formação de recursos humanos altamente qualificados. A Avibras, Hetem aponta que, ao ser revitalizada, ela reforça a base industrial necessária para transformar conhecimento em produto, garantindo capacidade de fabricação, desenvolvimento de sistemas e sustentação logística dentro do país.

"Já o 14-X fica na fronteira do conhecimento, impulsionando áreas críticas como aerotermodinâmica hipersônica, combustão em regime supersônico e materiais de altíssimo desempenho. A interação entre esses três elementos criará um ecossistema tecnoindustrial mais robusto, no qual conhecimento, indústria e inovação avançada deixam de operar de forma isolada e passam a se reforçar mutuamente."

Segundo ele, esse alinhamento será fundamental para evitar a fragmentação de esforços e garantir a continuidade tecnológica.

"Do ponto de vista estratégico, isso reduz a dependência externa em sistemas críticos e amplia a autonomia decisória do país. Também fortalece a capacidade de inovação incremental e disruptiva, ao permitir que tecnologias desenvolvidas em um contexto sejam adaptadas em outros", conclui o especialista.


Por Sputinik Brasil