SISTEMA FINANCEIRO

Deu certo? Fintechs dominam 'naming rights' milionários após flexibilização regulatória

Nubank no Palmeiras, PagBank na estação Faria Lima: o que há por trás das mudanças na regulação de bancos digitais?

Por Assessoria Publicado em 14/04/2026 às 18:12
Carlos Akira Sato é especialista em Mercado de Capitais e Fintechs Divulgação/M2 Comunicação

Em menos de uma década, o sistema financeiro brasileiro passou por uma transformação estrutural profunda. O que começou como um movimento de flexibilização regulatória, com redução de barreiras, novas licenças e incentivo à concorrência, deu origem a uma nova geração de instituições. Fintechs como Nubank, Banco Inter e PagBank conquistaram milhões de clientes e passaram a movimentar volumes bilionários, alterando de forma definitiva a dinâmica do mercado financeiro no país.

Mais recentemente, porém, o avanço dessas empresas deixou de ser apenas tecnológico e passou a ganhar contornos institucionais. O investimento em naming rights e patrocínios milionários sinaliza uma mudança estratégica relevante. O Nubank, por exemplo, passou a investir no estádio do Palmeiras, e e está em processo de enquete para que os torcedores escolham o novo nome (Nubank Parque, Nubank Arena ou Parque Nubank).

O PagBank, por sua vez, chegou a Faria Lima para adquirir o nome da estação próxima ao centro financeiro mais estratégico da cidade de São Paulo, da Linha 4-Amarela. E o Banco Inter completou 1 ano de parceria da aquisição de uma arena da Major League Soccer (MLS), nos EUA, a Inter&Co Stadium, em Orlando.

“Ao investir em naming rights e patrocínios milionários, essas empresas estão comprando algo mais do que visibilidade: estão comprando legitimidade”, afirma Carlos Akira Sato, vice-presidente de Relações Institucionais da PAGOS e especialista em Mercado de Capitais e Fintechs.

Esse movimento reflete uma transformação mais profunda no posicionamento dessas companhias. Se antes eram vistas como disruptoras, hoje operam como parte da infraestrutura do sistema financeiro. “Naming rights não são marketing, e sim, uma declaração de que não são mais desafiantes, mas parte do sistema”, explica o especialista.

A escala atingida por essas instituições alterou sua natureza, levando-as a desempenhar um papel cada vez mais relevante em pagamentos, crédito e serviços financeiros essenciais. “Estádios, metrôs e grandes eventos não são o ponto central. São sinais de que fintechs deixaram de ser nicho. Além disso, a competição migrou de produto para percepção e se tornou confiança, que é o principal ativo competitivo”.

Inversão de papéis

Ao mesmo tempo, o setor vive uma inversão de papéis. Bancos tradicionais passaram a incorporar práticas típicas das fintechs, acelerando investimentos em digitalização, experiência do usuário e plataformas. Esse movimento aponta para uma convergência inevitável. “Durante décadas, fintechs tentaram se aproximar do modelo bancário para ganhar escala e confiança. Agora, são os bancos que tentam se aproximar do modelo fintech para ganhar eficiência e relevância”, avalia.

Akira explica que instituições como Itaú Unibanco, Bradesco e Santander Brasil vêm acelerando investimentos em:

  • digitalização de serviços
  • simplificação de jornadas
  • experiência do usuário
  • plataformas e ecossistemas

“O objetivo é operar com a lógica de fintech, sem perder a estrutura de banco. Isso revela uma inversão estrutural. Durante décadas, fintechs tentaram se aproximar do modelo bancário para ganhar escala e confiança. Agora, são os bancos que tentam se aproximar do modelo fintech para ganhar eficiência e relevância”, acrescenta o especialista.

Esse cenário, no entanto, expõe um novo desafio regulatório. Apesar de operarem em escala semelhante, fintechs e bancos ainda estão sujeitos a exigências distintas. “O regulador já começa a reagir, com medidas que indicam maior responsabilização sistêmica, sobretudo em áreas como infraestrutura de pagamentos”.

Se antes o foco estava em estimular inovação, agora a discussão passa a ser sobre como regular instituições que já atingiram escala sistêmica. “O Brasil construiu um dos ecossistemas financeiros mais dinâmicos do mundo, mas o verdadeiro desafio agora é entender se o arcabouço regulatório que viabilizou esse crescimento ainda é suficiente para governá-lo”, conclui Akira.

Fonte:

Carlos Akira Sato – especialista em Mercados Regulados, Infraestrutura Financeira, Governança e Inovação. Vice-Presidente de Relações Institucionais da PAGOS. Co-founder Fenynx Digital Assets. Diretor Move Centro SP. Conselheiro Abrarec. Atuação ativa como representante da associação Pagos em grupos de trabalho com Ministério da Fazenda / SPA, Banco Central do Brasil, Comissão de Valores Mobiliários (CVM), entre outros.