'Não tão invencível': Israel mira o Líbano para desviar o foco do fracasso no Irã, avaliam analistas
Ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas apontam que a intenção anunciada de Israel sobre ampliar a zona tampão no sul do Líbano é "marketing político" contra o desgaste da imagem de imbatível e avaliam que o colapso das forças israelenses torna improvável o sucesso da empreitada.
O governo israelense decretou que vai expandir a zona tampão no sul do Líbano, ampliando seu controle sobre toda a faixa da região até o rio Litani e aumentando a presença israelense em quase um décimo do território libanês. A determinação é apontada pelo governo do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, como uma medida de segurança necessária.
Segundo noticiado pela mídia, a operação será no "modelo Gaza", destruindo casas e vilarejos da mesma forma como foi feito na devastação das cidades palestinas de Rafah e Beit Hanoun.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, Karina Calandrin, professora de relações internacionais do Ibmec, afirma não ver a expansão como uma necessidade de Israel, embora seja essa a "a justificativa que o governo de Israel dá".
Ela explica que a região da zona tampão foi estabelecida após a Guerra de 1982, quando houve a primeira incursão de Israel no sul do Líbano contra a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que estava presente no local, assim como xiitas muçulmanos. Com o término do conflito, a zona tampão foi estabelecida por uma missão da ONU.
"Mas isso nunca aconteceu da forma como previsto. Então, Israel continua alegando que precisa avançar militarmente nessa região. Lembrando que depois de 1982 Israel ainda permaneceu militarmente nesse território até os anos 1990."
Um entrave para a ambição de Israel de ampliar a zona tampão é o colapso das Forças de Defesa de Israel (FDI), que ela destaca ser um fato pouco noticiado pela mídia tradicional.
"Vamos lembrar que Israel passou agora por dois anos da guerra na Faixa de Gaza. Hoje está enfrentando o Irã numa guerra e agora parte para uma nova ofensiva no Líbano que também aconteceu durante os dois anos em Gaza. Também tiveram [em paralelo] ofensivas no Líbano."
Calandrin explica que em Israel todos passam por serviço militar obrigatório e se tornam reservistas podendo ser acionados a qualquer momento. E quando isso ocorre, como em 1º de março, quando 100 mil foram convocados, a sociedade fica em alerta, porque significa "que a situação é mais séria e que as forças tradicionais não vão dar conta sozinhas".
"Isso aconteceu muito nos últimos dois anos, desde 2023 praticamente todos os homens em idade de reserva foram convocados e muitas mulheres também. Quase praticamente todo mundo que eu conheço que mora em Israel em idade de reserva foi convocado. Isso causa um pânico muito grande na sociedade", afirma a especialista.
Somado a esse desgaste das forças israelenses, mísseis iranianos estão atravessando o Domo de Ferro, que foi projetado para a defesa contra os mísseis lançados pelo Hamas e o Hezbollah, ao passo que os do Irã são muito melhores do ponto de vista técnico e militar.
"Eles têm mísseis balísticos supersônicos. Então, assim, eles conseguem atravessar o Domo de Ferro muito mais fácil do que os mísseis do Hamas. Por isso que a gente está vendo um estrago bem maior agora com essa guerra do que a gente via nas outras guerras contra o Hamas ou mesmo contra o Hezbollah. Isso tem desgastado muito a sociedade israelense e eu acho que está próximo, sim, de um colapso na área de segurança."
Ela afirma que o governo israelense nunca vai admitir esse desgaste, mas que as guerras travadas estão levando o país próximo de um colapso militar.
"Não somente pela falta de equipamento ou falta de capital econômico, mas sim porque a população está exausta e há um limite de até que ponto eles conseguem lutar."
A intenção de Israel de ampliar a zona tampão no sul do Líbano também está ligada ao projeto sionista da criação do Estado de Israel, segundo aponta a professora de história da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Samira Osmar.
"Essa configuração que hoje, nesse momento, nós estamos assistindo, nessa intenção de Israel com Netanyahu, é um projeto que já está presente no projeto sionista, em 1948, ele está presente nas próprias palavras do [David] Ben-Gurion, que foi o primeiro líder de Israel logo após a criação do Estado, que era expandir as suas fronteiras para além do que foi permitido pela Carta da ONU."
Ela afirma que Israel agora encontrou um momento oportuno para atingir o limite desejado de suas fronteiras, que permanece indefinido desde a declaração de independência e que, justamente por isso, o governo israelense enxerga a chance de ampliá-las agora.
Osmar avalia que o atual governo israelense está deixando muito claro que sua intenção é "redesenhar o mapa do Oriente Médio" e diz que o Irã representa o único empecilho, a única força oponente a essa expansão ampla.
Ela acrescenta que essa resistência iraniana é justamente um dos motivos para Israel voltar as atenções para o Líbano. Isso porque o Irã já expôs ao mundo que o Domo de Ferro não é impossível de ser ultrapassado, o que fez cair por terra a imagem de Israel como um Estado imbatível.
"Se eu não posso com um inimigo maior, eu ataco o menor. Neste caso, o Líbano é a força menor. Então, eu vejo isso muito como uma forma de desviar o fracasso militar em relação ao Irã. Uma forma também de isentar Israel e os EUA das consequências do fechamento do estreito de Ormuz que o Irã está impondo para o mundo", avalia.
Diante disso, ela avalia que um ataque ao Líbano seria uma forma de Israel mostrar que ainda tem força militar, "desviar a atenção de que Israel não é tão invencível assim", embora o país não tenha mais capacidade de manter a ofensiva contra o Irã.
"Acho que é uma estratégia política, é uma estratégia também de marketing político, uma intenção de mostrar força quando há um enfraquecimento."
Por Sputinik Brasil