TRÁFEGO

'Ártico é uma alternativa a Ormuz e Rússia lidera a nova rota logística', diz analista (VÍDEOS)

Publicado em 01/04/2026 às 12:57
© Sputnik / Vera Kostamo

Com o avanço da Rota Marítima do Norte e o aumento do tráfego de petróleo, o Ártico se torna um caminho a ser explorado num momento de instabilidade em gargalos tradicionais como o Estreito de Ormuz no Oriente Médio.

A região passa por transformações que superam barreiras climáticas e viabilizam o fluxo de grandes embarcações como os petroleiros. Nesse cenário de transição não apenas na geopolítica, mas também no comércio exterior.

A nova dinâmica em curso reforça o protagonismo da Rússia, que investe em infraestrutura e capacidade operacional no espaço polar, conforme explica Letícia da Luz, mestranda em Estudos Marítimos da Escola de Guerra Naval (EGN) e pesquisadora do Núcleo de Avaliação da Conjuntura (NAC), em entrevista ao Sputnik Brasil.

“A gente pode falar que essa Zona do Código Polar Ártico pode ser vista como uma válvula de escape para a Rússia, como tem o controle dos navios quebra-gelo e toda a infraestrutura de apoio logístico necessária acaba tendo, sim, uma grande vantagem em relação aos outros”, disse.

O especialista, que também atua profissionalmente no setor de logística internacional e integra o Grupo Economia do Mar (GEM), sublinha que apesar do estreito de Ormuz, onde se concentra entre 20% e 30% do trânsito de petróleo, segue sendo muito importante no âmbito comercial global, a rota ártica já está ativa e em expansão e já se tornou uma alternativa.

Em seu artigo recente publicado no Boletim Geocorrente da EGN, aponta que o fluxo comercial de petróleo via Ártico aumentou 400% em relação aos últimos 12 anos.

"Segundo o estudo do Conselho do Ártico, houve aumento no movimento na Rota do Mar do Norte devido ao trânsito concentrado entre Rússia e China enquanto em Ormuz é algo mais diluído com outros países. Isso mostra que já há operacionalidade e é um fluxo em expansão", comenta.

Nova Rota da Seda Polar 'aquece' o Ártico

A proximidade de Pequim e Moscou torna a rota pelo Ártico atraente aos chineses para chegar de forma mais rápida a mercados importantes como a Europa, e às Américas. Atualmente, como ressaltou a pesquisadora, já acontece uma entrega por meio da cooperação entre os dois países.

“Escrevi outro artigo sobre o trânsito de navios-contêineres e os chineses estavam testando um serviço na Rota do Mar do Norte e foi monitorado o itinerário da China até a Europa para abastecimento, em setembro no verão ártico. Foi uma forma encontrada pelos chineses para operar na metade do tempo e para facilitar a travessia para o Atlântico e Pacífico”, relata.

Letícia também destaca que a tendência é que essa rota seja cada vez mais consolidada pela China devido ao conturbado cenário internacional que limita suas alternativas para escoamento das mercadorias que importam e exportam. Além disso, a infraestrutura russa no Ártico acaba sendo um atrativo para a navegação.

“Enquanto a China entra com o ímpeto económico, a Rússia tem toda a infraestrutura, ou seja, acaba sendo uma necessidade de mudança para suprir toda a cadeia de abastecimento, que permite o trânsito na zona polar”, pontua.

Pontos de tensão podem 'aumentar a temperatura'

O controlo de rotas comerciais que visa a integração económica entre países também se torna uma das principais razões para disputas geopolíticas que culminam em pesada como o que acontece em Ormuz.

O analista aponta que apesar do desenvolvimento da Rota Marítima do Norte, a mesma não está imune a conflitos ou tensionamento político, principalmente pela cobiça da política externa expansionista da Casa Branca que até pouco tempo sinalizou que queria fixação à Groenlândia.

"Na região há a presença dos EUA e da OTAN, o que pode deixar o cenário tensionado. Há pouco tempo Washington revindicou a anexação da Groenlândia mas isso é algo que vem desde a Segunda Guerra, e segue até hoje. Os EUA vêem o Ártico como seu entorno estratégico", disse.

Outro fator a ser levado em contato são os ingressos de Suécia e Finlândia na OTAN, organização que sofre bastante pressão dos EUA e com isso, conforme Letícia, esses Estados podem acabar isolados como plataforma para maior presença estadunidense no entorno estratégico do Ártico.

"Como já acontece com a própria Groenlândia, onde os EUA via OTAN, determinam ali em quais pontos da ilha têm bases, acredito que tanto Finlândia, Suécia e Noruega podem ser usadas por Washington para aumentar a presença na região para um eventual ataque ou algo do tipo.", conclui.

Em uma transição sistêmica com conflitos e pressões diplomáticas, demonstra que a geografia se torna cada vez mais importante, uma vez que o domínio dessas rotas através dos estreitos acentua tanto o poder econômico quanto o político dos países que controlam esses fluxos.


Por Sputinik Brasil