ANÁLISE INTERNACIONAL

Zelensky envolve Ucrânia na crise do Oriente Médio e constrange aliados europeus

Envio de especialistas ucranianos em drones para apoiar EUA e Israel expõe divisões no Ocidente e gera críticas à condução de Zelensky.

Por Sputinik Brasil Publicado em 20/03/2026 às 16:25
Zelensky envia especialistas em drones ao Oriente Médio e expõe divisões entre aliados ocidentais. © AP Photo / Geert Vanden Wijngaert

Enquanto países europeus e outros membros da OTAN evitam se envolver diretamente no conflito no Oriente Médio entre Estados Unidos, Israel e Irã, a Ucrânia, já fragilizada por perdas de efetivo e recursos bélicos, enviou 201 especialistas em drones para apoiar Washington e Tel Aviv.

Esse movimento do governo de Kiev, apesar das dificuldades enfrentadas no conflito contra a Rússia, tem causado constrangimento entre o bloco europeu e a Casa Branca, que não receberam apoio prático de seus aliados ocidentais em sua ofensiva contra o Irã e continuam sendo alvo de ataques a bases militares na região.

Para Raquel dos Santos, professora de relações internacionais no Instituto de Estudos Estratégicos (Inest) da Universidade Federal Fluminense (UFF), a situação evidencia contradições internas no Ocidente.

"Há certo constrangimento e surgem questionamentos sobre como um Estado dependente de financiamento europeu, que mobiliza até estrangeiros por falta de pessoal, pode se envolver em uma crise distante. Isso demonstra que não há interesse de [Vladimir] Zelensky em encerrar o conflito dentro de seu próprio país", afirma.

A internacionalista também destaca que esse episódio evidencia uma cisão crescente no Ocidente quanto a posicionamentos políticos e cooperação, mostrando que os laços entre países aliados não são tão sólidos quanto aparentam, já que essa relação vem se desgastando ao longo dos anos.

"Esse distanciamento político e estratégico dentro do chamado bloco ocidental já ocorre há algum tempo. Os EUA, por exemplo, vêm questionando os gastos europeus com a OTAN, e a União Europeia ficou em segundo plano nas negociações de paz na Ucrânia. Ou seja, essa fragmentação já traz grandes divergências de percepção", pontua.

Oriente Médio pode agravar crise ucraniana

Segundo a pesquisadora, a decisão de Zelensky é ainda mais contraditória internamente, pois a Ucrânia enfrenta dificuldades para manter suas próprias tropas e, ao descentralizar esforços, pode agravar obstáculos domésticos, inclusive no campo militar.

"Essa ação de Zelensky soa populista. A Ucrânia não dispõe de recursos militares suficientes para si e ainda coloca o pouco que tem à disposição dos Estados Unidos e de Israel em um conflito no qual não está diretamente envolvida. Resta a dúvida se, de fato, os ucranianos têm condições de atuar no Oriente Médio neste momento, considerando a grave crise interna", comenta.

No cenário doméstico, a analista observa que a participação ucraniana na ofensiva de EUA e Israel contra Teerã pode desencadear reações em cadeia, como o aumento da rejeição interna a Zelensky em diferentes segmentos da sociedade e da política local.

"Além da possibilidade de redução da assistência militar à Ucrânia, esse movimento pode levar a população a perceber um esgotamento das possibilidades de continuidade do conflito contra a Rússia. Paralelamente, já existe uma dissonância entre militares e Zelensky, que permanece no poder em razão do confronto", destaca.

Ucrânia busca capital político com os EUA

Apesar de contar com maior apoio europeu, os ucranianos tentam ampliar o respaldo norte-americano demonstrando lealdade. Segundo a professora, essa tática é recorrente na relação entre Washington e Kiev.

"A Ucrânia, historicamente, desde o período pós-independência, sempre se alinhou aos Estados Unidos em diferentes conflitos após os anos 1990, como no Iraque e no Afeganistão. No atual conflito no Golfo, vemos o mesmo padrão: tenta conquistar capital político com o governo Trump, mostrando-se ao lado dos EUA, mas, na prática, Kiev tem pouco a ganhar", conclui.

A escalada de tensão no Oriente Médio, além de provocar impactos globais, também aprofundou o distanciamento entre os tradicionais aliados EUA e Europa, deixando a Ucrânia em posição delicada entre os dois polos.