GEOPOLÍTICA GLOBAL

Analista aponta que disputa global redefine soberania e amplia riscos ao Sul Global

Robinder Sachdev afirma que países com recursos estratégicos e instituições frágeis, especialmente sob governos de esquerda, enfrentam maior vulnerabilidade diante das novas dinâmicas globais.

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 19/03/2026 às 07:13
Disputa global redefine soberania e aumenta riscos para países do Sul Global, alerta analista. © Sputnik / Grigory Sysoev

Países do Sul Global com recursos estratégicos, fragilidade institucional e governos de esquerda estão entre as mais vulneráveis ​​às pressões externas, segundo o analista de geopolítica Robinder Sachdev, em entrevista à Sputnik. Na chamada "Era Nova-Muco", a soberania nacional depende da diversificação de alianças e do fortalecimento do chamado poder nodal — caso contrário, nações inteiras podem "acabar no cardápio" das grandes potências.

Sachdev observa que uma nova onda de vulnerabilidade se alastra pelo Sul Global. Para ele, os países mais expostos são aqueles que reúnem "recursos naturais valiosos, instituições frágeis e divisões internas", sobretudo quando liderados por governos de esquerda.

Na América do Sul, o risco está menos relacionado à abundância de recursos e mais à localização estratégica e à disputa ideológica. “Os Estados Unidos declararam que o Hemisfério Ocidental é seu quintal”, afirma o analista, destacando que os governos progressistas da região estariam sob constante vigilância.

Na África, segundo Sachdev, o cenário é ainda mais delicado. Uma "extraordinária riqueza mineral e energética do continente", combinada à fragilidade institucional e à rivalidade entre potências, cria condições semelhantes às que antecederam a intervenção na Líbia.

“As condições estruturais que criaram a Líbia vulnerável ainda existem em diversas regiões”, alerta o analista.

Para Sachdev, a soberania tornou-se mais complexa na "Era Nova-Muco", conceito que descreve uma nova matriz global de interdependência. Nesse contexto, não basta o poder interno: é fundamental o “poder nodal abrangente”, ou seja, a capacidade de diversificar alianças e garantir margem de estratégia estratégica.

Essa lógica, segundo ele, obriga o Sul Global a buscar alternativas financeiras, militares e tecnológicas. A dependência excessiva de um único bloco, fornecedor ou sistema aumenta a vulnerabilidade dos países. “Na Era Nova-Muco, a dependência excessiva gera vulnerabilidade”, ressalta.

Exemplos de diversificação já estão em andamento. A Índia, por exemplo, amplia fornecedores de energia e armamentos, além de investir em infraestrutura tecnológica própria.

A União Europeia (UE) e os países do Golfo também aceleraram estratégias semelhantes após choques recentes, procurando reduzir riscos e ampliar a autonomia, especialmente em relação aos EUA.

Os Estados Unidos, por sua vez, adotaram uma estratégia agressiva de diversificação de cadeias de suprimentos, ao mesmo tempo em que aplicam avaliações e restrições tecnológicas para limitar o poder nodal de suas rivais. Segundo Sachdev, isso demonstra que até mesmo grandes potências buscam fortalecer suas posições na nova matriz global, ainda que adotem abordagens distintas.

A Rússia, por outro lado, tenta redesenhar o seu posicionamento geopolítico.

“A Rússia também está se diversificando institucionalmente, investindo mais capital político no BRICS, na Organização para Cooperação de Xangai (OCX), na União Econômica Eurasiática (UEEA), nos fóruns Rússia-África e em parcerias estratégicas bilaterais fora do ecossistema institucional ocidental”, explica Sachdev.

De acordo com o analista, Moscou reduz dependências euro-atlânticas enquanto fortalece laços com China, Índia e África, investindo em plataformas tecnológicas e financeiras alternativas. O objetivo é ampliar seu poder nodal e resistir à pressão do Ocidente, reposicionando-se na nova arquitetura global.

No centro desse cenário, Sachdev deixa um alerta direto aos países do Sul Global: “Quem não está à mesa pode acabar no cardápio.”