ANÁLISE ESTRATÉGICA

Rearranjo geopolítico expõe necessidade de revisão na defesa do Brasil, aponta especialista

Crises internacionais e novos investimentos reacendem debate sobre modernização e equilíbrio das Forças Armadas brasileiras

Por Sputinik Brasil Publicado em 18/03/2026 às 20:16
Evolução dos conflitos internacionais pressiona o Brasil a modernizar suas estratégias de defesa. © Foto / Érico Alves/Ministério da Defesa

A intensificação das tensões internacionais em 2026, marcada pelo sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro em Caracas e pela ofensiva militar de EUA e Israel no Irã, reacendeu no Brasil o debate sobre a capacidade de defesa e a modernização das Forças Armadas.

No final de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou uma lei que destina R$ 30 bilhões a projetos estratégicos das Forças Armadas ao longo de seis anos, com repasses anuais iguais a partir deste ano.

Esses recursos foram excluídos das regras do arcabouço fiscal, permitindo ao governo utilizá-los mesmo que ultrapassem o limite de despesas, além de ficarem protegidos de contingenciamentos.

Segundo o Valor Econômico, em 2026, a maior parcela dos R$ 5 bilhões previstos irá para a Marinha do Brasil (MB), enquanto nos anos seguintes a Força Aérea Brasileira (FAB) deve ser a principal beneficiada.

Além das tensões na Venezuela e no Oriente Médio, as Forças Armadas apresentaram ao governo um plano de investimentos de R$ 800 bilhões para 15 anos, com vinculação orçamentária.

A necessidade de modernização das três forças é evidente, como avalia Rafael Laginha do Nascimento, doutorando em direito e mestre em estudos estratégicos da defesa e da segurança pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

Durante o mestrado, Laginha pesquisou o Programa de Desenvolvimento de Submarinos da Marinha do Brasil (Prosub), mas ressalta que, diante das extensas fronteiras terrestres e da chamada Amazônia Azul, o maior desafio da defesa nacional está no espaço aéreo, historicamente negligenciado em investimentos.

"O único país que tinha uma defesa aérea em camadas era a Venezuela. E nós vimos o que aconteceu com a Venezuela. Já o Brasil, ele não tem uma defesa em camadas. Ele tem o que a gente chama de defesa de ponto, que é a defesa de curto alcance", afirma.

Nesse contexto, Laginha destaca a necessidade de o Brasil rever sua política estratégica, equilibrando os investimentos entre as forças, sobretudo porque os conflitos modernos tendem a começar pelo domínio do espaço aéreo.

Sobre guerra cibernética e uso de drones, o analista reforça que a defesa aérea brasileira ainda é deficiente, sem ativos distribuídos em camadas e sem sistemas de médio ou longo alcance, o que gera sérios desafios.

Recentemente, a Marinha ativou sua primeira divisão de drones para apoio em operações militares, proteção de áreas estratégicas e combate ao crime organizado. No entanto, conforme analisou Paulo Henrique Montini dos Santos Ribeiro à Sputnik Brasil, o impacto inicial dessas ferramentas será limitado.

Para Laginha, o principal entrave está na questão orçamentária. O orçamento do Ministério da Defesa para 2026 é de R$ 142 bilhões, superior ao de muitos outros ministérios, mas grande parte ainda é destinada a salários, o que limita a capacidade de desenvolvimento, especialmente no Exército Brasileiro, que possui o maior efetivo.

"Enquanto a gente não tiver uma política pública voltada para garantir um orçamento de defesa equilibrado e perene, esses desafios não vão encontrar uma solução a curto e médio prazo. Programas como o Prosub e o SisGAAz [Sistema de Gerenciamento da Amazônia Azul] são importantíssimos, mas a execução sempre encontra barreiras", conclui.