PETRÓLEO

Análise: crise global do petróleo confere vantagem estratégica para biocombustíveis do Brasil

Por Sputinik Brasil Publicado em 18/03/2026 às 19:16
© Foto / Robert Couse-Baker / PxHere

Em entrevista à Sputnik Brasil, especialistas apontam que a alta nos preços do petróleo decorrente da guerra no Oriente Médio abre oportunidades para o setor de bioenergia do Brasil, que tem posição de destaque global.

A escalada da guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã causou instabilidade no mercado global de petróleo. Ataques norte-americanos e israelenses contra instalações de petróleo iranianas e a resposta de Teerã em bloquear o estreito de Ormuz, rota marítima crucial para o comércio global de petróleo, por onde passam mais de 30% da commodity, levaram o preço do barril do petróleo Brent, referência do mercado internacional, a superar a marca de US$ 100 (cerca de R$ 520).

Lar de uma das mais vastas reservas do mundo, com 33 trilhões de metros cúbicos, o Irã é um dos maiores produtores globais de petróleo, e afirmou recentemente que o mundo deve se preparar para um petróleo acima de US$ 200 (cerca de R$ 1.044) por barril.

Em cenários de oferta restrita como o atual, fontes de energia alternativas ganham destaque, e uma das opções pode ser os biocombustíveis, setor no qual o Brasil tem protagonismo por ser um dos maiores produtores de etanol de cana e milho e de biodiesel à base de soja.

O Brasil se posiciona de forma singular entre as grandes economias ao reunir condições estruturais para transformar esse choque externo em vantagem estratégica, segundo aponta à Sputnik Brasil Luis Rutledge, analista de geopolítica energética da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), membro do Conselho Consultivo do Observatório do Mundo Islâmico e membro do Centro de Estudos das Relações Internacionais (CERES).

"Diferentemente de países altamente dependentes da importação de combustíveis fósseis, o Brasil dispõe de uma base produtiva consolidada em bioenergia, fortemente integrada ao seu setor agropecuário, o que permite não apenas mitigar impactos internos, mas também capturar oportunidades no mercado internacional", afirma o analista.

E conforme a produção agrícola do país se expande amplia a disponibilidade de matérias-primas para biocombustíveis, como soja para biodiesel e cana-de-açúcar para etanol e resíduos orgânicos que podem ser convertidos em biogás e biometano.

Essa interação entre agricultura e energia, aponta Rutledge, confere ao Brasil uma capacidade diferenciada de resposta, permitindo substituir parcialmente o diesel fóssil por alternativas renováveis produzidas internamente. Com isso, o país reduz sua exposição às oscilações do mercado internacional e melhora a previsibilidade de custos para setores estratégicos, como o agronegócio e o transporte.

"Paralelamente, o aumento dos preços do petróleo eleva a competitividade relativa dos biocombustíveis no cenário global, criando uma janela de oportunidade para o Brasil expandir suas exportações de etanol, biodiesel e, potencialmente, combustíveis sustentáveis de aviação (SAF)."

No entanto, para que esse potencial seja materializado, o país depende de outros fatores, estruturais e institucionais, como a ampliação da infraestrutura logística, a previsibilidade regulatória, a estabilidade das políticas de mistura de biocombustíveis e a expansão da capacidade industrial. Segundo Rutledge, sem esses elementos, há risco de o país capturar apenas parcialmente os benefícios de um cenário internacional adverso.

"Dessa forma, embora a guerra e a instabilidade global não sejam, em si, fatores positivos, elas podem funcionar como catalisadores para o fortalecimento da posição brasileira no mercado energético, desde que o país consiga alinhar sua política energética e agrícola a uma estratégia de longo prazo", observa o especialista.

No caso do etanol, fonte de bioenergia na qual o Brasil tem posição relevante como exportador, Rutledge afirma que cenários de alta do petróleo ou de instabilidade geopolítica tendem a conferir ao setor competitividade no mercado internacional, ampliando seu papel tanto como alternativa energética quanto como instrumento de inserção econômica global.

"A produção de etanol da safra 2026/27 pode atenuar o impacto da alta do petróleo. A expansão da produção de etanol no Brasil tende a atenuar de forma relevante os impactos da alta do petróleo no mercado interno de combustíveis."

Ele acrescenta que a produção de etanol está integrada ao setor agrícola, o que permite ajustes relativamente dinâmicos conforme as condições de mercado, ampliando sua relevância como instrumento de segurança energética, fortalecendo a previsibilidade de custos para setores dependentes de combustíveis e reduzindo a exposição a choques externos.

Para Luciano Losekann, professor e coordenador do Grupo de Energia e Regulação (Gener) da Universidade Federal Fluminense (UFF), o preço do petróleo tende a se manter em patamares elevados nos próximos meses com a guerra no Oriente Médio, o que de fato impulsiona o consumo de biocombustíveis, tanto internamente quanto internacionalmente. "A questão é o prazo para que esses efeitos ocorram", pondera Losekann.

Ele cita como exemplo o caso do etanol anidro, biocombustível obtido a partir de etanol desidratado. Atualmente, a percentagem de mistura de etanol anidro na gasolina autorizada pelo governo brasileiro é de 30% na gasolina. Já no caso do diesel, a percentagem de biodiesel misturado é de 15%. O governo ainda estuda elevar para 35% a mistura de etanol anidro na gasolina. Losekann afirma que a elevação da percentagem é mais razoável para o etanol anidro do que para o biodiesel.

"Porque o biodiesel, mesmo com a situação de preços do diesel, ainda acaba sendo mais caro. Então, como já está o preço pressionado, isso pode ser uma política que não seja tão interessante."

Sobre a capacidade de o Brasil ampliar rapidamente a produção de etanol e biodiesel para aproveitar esse possível aumento de demanda, Losekann ressalta que o etanol hidratado é o etanol que é escolhido por proprietários de veículos flex e o aumento do consumo está relacionado ao repasse do preço na gasolina para o mercado interno.

"Isso ainda não aconteceu, na verdade, se a gente observar o que está acontecendo nos mercados, é que o preço do etanol hidratado tem acompanhado a elevação da própria gasolina. Então, acabou não tendo diferencial de consumo", explica o especialista.

No entanto, ele considera que, caso a situação atual se estenda, em longo prazo, "tende a favorecer os biocombustíveis e também o conjunto de renováveis".

A crise atual pode acelerar a transição energética?

Um dos objetivos do governo brasileiro é fazer do Brasil protagonista na transição energética. Para Rutledge, a guerra no Oriente Médio pode aproximar essa meta da realidade, uma vez que a interrupção nos mercados de energia causada pelo fechamento do estreito de Ormuz leva os países a refletirem sobre uma saída mais rápida da dependência de combustíveis fósseis.

"O Brasil, em particular, possui uma posição de destaque no cenário global de energia limpa. Nossa matriz elétrica é totalmente renovável, algo impensável para grande maioria dos países da União Europeia, por exemplo."

Losekann, por sua vez, afirma que a transição energética vinha experimentando um movimento de redução ao redor do mundo, com países voltando atrás nas políticas de estímulo a fontes renováveis de energia. Porém, a crise no Oriente Médio tende a reverter esse cenário.

"Acho que a situação, não só de preços, mas também de segurança de abastecimento, leva que os países voltem a estimular renováveis. E aí o cenário pode ser de um novo momento para a transição com a volta de estímulos."