POLÍTICA

À Sputnik Brasil, João Doria fala sobre eleições de 2026, Banco Master e setor privado

Por Sputinik Brasil Publicado em 18/03/2026 às 18:16
© Sputnik / Guilherme Correia

Três anos após deixar a vida pública, o ex-governador de São Paulo, João Doria, foi ouvido pela Sputnik Brasil sobre o cenário político de 2026, seus posicionamentos enquanto um dos principais empresários brasileiros, e também sobre sua relação com Daniel Vorcaro.

Doria venceu três prévias do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), partido pelo qual se elegeu prefeito da cidade e estado de São Paulo. No entanto, segundo ele, "o PSDB não honrou a vitória nas prévias e não validou o resultado", se referindo a 2022, quando almejou ser candidato à Presidência.

Hoje, ele comenta que tem boas lembranças do período em que foi político com mandato, mas que não pretende voltar à vida pública.

Atualmente, ele comanda o grupo empresarial Lide, ao lado do filho João Doria Neto, o CEO, e de Luiz Fernando Furlan, mantido como chairman durante os anos em que Doria estava no governo. "Eu entendi que ele deveria ser mantido nessa posição, até pelo brilhantismo do seu trabalho e a sua linda biografia", afirma.

Além disso, abriu duas empresas de consultoria — a J. Doria Advisors e, em parceria com o ex-presidente Michel Temer, a M Advisors.

"Muito feliz de retomar as minhas atividades na vida privada, sem nenhum ressentimento ou mágoa do período em que eu estive na área pública, pelo contrário. Boas lembranças e grandes ensinamentos."

Setor empresarial

O Lide, que completa 25 anos em maio, cresceu muito desde sua fundação, com milhares de associados, e, segundo Doria, ocupa a segunda posição no ranking global de grupos corporativos — atrás apenas do Fórum Econômico Mundial. Ele vê o grupo como um espaço de diálogo entre o setor empresarial.

"O Brasil ganhou a diversidade e robustez na sua atividade econômica, na atividade privada", analisa.

No entanto, ele opina que "hoje nós temos um setor maior, mais robusto, mais diversificado, mas faltam líderes".

Doria cita os nomes de Antônio Ermírio de Moraes e Abílio Diniz (do grupo Votorantim e Carrefour, respectivamente) como referências que o país perdeu — figuras que, na sua leitura, não foram substituídas à altura.

Eleições 2026

Diante do cenário eleitoral que se aproxima em outubro deste ano, Doria entende que a disputa deve se resumir a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro (PL), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro.

"Basicamente entre um candidato mais à esquerda, mais à extrema esquerda, e um candidato mais à extrema direita. Vejo pouco campo para configurar um candidato com chances mais de centro, centro-direita ou centro-esquerda."

No entanto, ele não perde a esperança de candidatos que admira: "Tenho pessoalmente um apreço muito grande por Ronaldo Caiado, governador do estado de Goiás, igualmente por Eduardo Leite, governador do estado do Rio Grande do Sul, Ratinho Júnior, governador do estado do Paraná, e Romeu Zema, governador do Estado de Minas Gerais. Todos foram meus colegas no período em que fui governador de São Paulo."

Sobre uma eventual volta sua à política, ele afirma que hoje, não tem "nenhuma pretensão de voltar à vida pública". "Repito, sem mágoa, sem ressentimento, mas cumpri essa etapa. Virei essa parte e voltei da onde eu vim, do setor privado."

Banco Master

A Polícia Federal (PF) encontrou, no celular do banqueiro Daniel Vorcaro — preso na terceira fase da Operação Compliance Zero —, mensagens trocadas com o ex-governador. No diálogo, Doria escreveu: "Amigo Daniel, boa tarde. Estou preocupado com você. Tenho escutado coisas que vão precisar de reação sua. Sempre com equilíbrio e ponderação. Mas jamais com o silêncio. Vamos agendar um café?".

Quando Vorcaro perguntou a que se referia, Doria respondeu: "A você. Ao Maurício. Ao banco" — em referência a Maurício Quadrado, ex-sócio do Banco Master. O Banco Master também patrocinava eventos do Lide, e Vorcaro chegou a ser homenageado pela entidade na categoria empreendedorismo em dezembro de 2024.

Questionado pela Sputnik Brasil sobre o episódio, Doria diz que o Banco Master era, segundo ele, apenas mais um entre os centenas de apoiadores do Lide. "O Banco Master era um dos 208 patrocinadores, apoiadores de eventos do Lide no Brasil. Mais de 200 empresas nos patrocinaram ao longo dos últimos três anos."

Ele rebate as críticas traçando um paralelo com a imprensa: "Da mesma forma que patrocinou eventos da Folha de São Paulo, eventos do Valor Econômico, eventos do Jornal O Globo, eventos da Revista Veja e outros veículos de comunicação no Brasil, que nem por isso sofrem qualquer tipo de avaliação de terem sido cúmplices ou aliados do Banco Master."

Anteriormente, sua assessoria havia informado que a mensagem foi enviada em maio de 2025 e que se tratou de "apenas um gesto cordial", em um momento em que "ainda não havia nenhum tema público de gravidade imputado ao Banco Master".

"É um episódio triste e ruim, do ponto de vista econômico, empresarial, financeiro. No âmbito do mundo financeiro brasileiro e politicamente também será muito utilizado, infelizmente, nas eleições que se aproximam pelos dois lados, um lado contra o outro, utilizando argumentos contrários parte a parte, ou seja, o tema vai se estender até o final do mês de outubro, quando terminarão as eleições no Brasil."

Origem 'pobre'

Doria não escondeu seu amor por São Paulo e pelo Brasil. Ele relembrou do pai, João Agripino da Costa Doria Neto, nascido em Salvador (BA), que foi um publicitário, advogado, psicólogo e deputado federal, conhecido por ter sido um dos criadores do Dia dos Namorados no Brasil, em 1949, que teve mandato cassado pelo Ato Institucional nº 1 em 1964, durante a ditadura militar, o que o levou ao exílio na França.

"Foi a cidade de São Paulo que recebeu o meu pai vindo da Bahia como um imigrante, com muitas limitações, para dizer uma pessoa pobre, e que aqui deu a oportunidade a ele, como deu a milhões de outros brasileiros de diferentes regiões do país."

Doria ressaltou que não optou por morar fora do Brasil, ainda que não julgue quem fez diferente. "Continuem acreditando no Brasil, mesmo com circunstâncias que possam debilitar o país de curto, médio prazo, mas o tempo é longo, o Brasil é grande. Muitas vezes a perspectiva mais próxima é ruim, mas aquela que vem a médio, longo prazo é melhor."

"Quem sabe o Brasil, um pouco mais adiante, possa oferecer uma recompensa que permita às pessoas admirarem o Brasil e terem orgulho do Brasil, coisa que hoje, infelizmente, está um pouco difícil."