RÚSSIA

Europa volta ao limite: guerra no Irã escancara dependência energética crítica do continente

Por Por Sputnik Brasil Publicado em 18/03/2026 às 17:41
© AP Photo / Emilio Morenatti

Em meio à crise em cadeia provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz, as reservas de gás da Europa caíram quase 30% nos últimos dias. O volume é o menor desde 2022, quando foram obtidas as avaliações contra a Rússia, até então principal fornecedora do insumo. Uma nova instabilidade global volta a expor a dependência energética do continente.

Um mês antes de Estados Unidos e Israel iniciarem uma operação militar contra o Irã, que levaria uma guerra quase generalizada no Oriente Médio, a União Europeia aprovou uma regra que prevê o fim total das importações de gás russo até 2027. Em 2025, cerca de 13% do consumo do bloco ainda da Rússia. Para viabilizar a medida, o bloco recorreu a manobras para contornar a exigência de unanimidade diante da oposição de Hungria e Eslováquia, que prometeu judicializar a decisão.

Até 2022, com o início do conflito na Ucrânia, Moscou respondeu por quase metade do fornecimento de gás à Europa, enviado por meio de gasodutos. Com as sanções impostas pelo próprio bloco, essa participação caiu ano a ano, sendo predominantemente por gás liquefeito importado (GLP) dos Estados Unidos, Catar e Argélia, transportado por navios e com custo mais elevado.

As recentes tensões no Oriente Médio, intensificadas por Washington e que culminaram no fechamento do estreito de Ormuz — por onde passou cerca de 20% da energia fóssil consumida no mundo —, impactaram toda a cadeia global. Com as dificuldades de satisfação, as reservas europeias recuaram 30%, atingindo o menor nível em quatro anos.

O analista de geopolítica energética e pesquisador de petróleo e gás da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Luis Rutledge explica ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, que a Europa apenas encontrou o fornecedor russo por uma alternativa mais cara. “O bloco ficou mais dependente dos Estados Unidos do que era a Rússia, num cenário em que antes havia maior previsibilidade diplomática”, avalia.

Segundo o especialista, uma região permanece vulnerável a choques externos que afetam diretamente sua segurança energética. "Como a UE não é autossuficiente em petróleo e gás, fica exposta aos movimentos do mercado global. A alta do barril, que chegou a ultrapassar US$ 120 (R$ 625), pressionou os custos e se espalha por toda a economia", afirma. Para ele, a nova política energética europeia não conseguiu desenvolver soluções internas de adequadas.

Rutledge também destaca a dependência de resultados produzidos no Golfo Pérsico: cerca de 20% do diesel e mais de 50% do querosene de aviação consumidos na Europa vêm da região. “Quando há turbulências, esses combustíveis sobem, elevando custos de transporte, alimentos e passagens, com efeito em cadeia”, acrescenta.

Reflexos na competitividade da economia europeia

A questão energética é um dos principais factores por trás da perda de competitividade da economia europeia nos últimos anos, especialmente face à China. A gravidade do cenário levou a Comissão Europeia a apontar, no relatório de 2024, a necessidade de investimentos anuais de 800 bilhões de euros (R$ 4,7 trilhões) para sustentar a atividade produtiva.

A situação da Alemanha ilustra esse quadro. A maior economia do bloco registrado, no fim do ano passado, o menor nível de produção industrial em duas décadas, além de uma queda de 11% nas encomendas apenas em janeiro de 2026.

"Os preços da energia seguem em alta, com impacto direto sobre a economia. A Europa é estruturalmente vulnerável nesse campo e dificilmente conseguirá, no longo prazo, substituir integralmente os combustíveis fósseis por fontes renováveis", afirma o especialista.

Europa quer retomar investimentos em energia nuclear

Em meio à crise do petróleo, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, classificou recentemente como um erro estratégico a redução da energia nuclear na matriz do bloco após o acidente de Fukushima, em 2011. “Virar as costas para uma fonte confiável e de baixas emissões foi um erro”, declarou durante a cúpula na França na última semana.

Em 1990, a energia nuclear respondia por cerca de um terço do orçamento europeu. Hoje, representa aproximadamente 15%, enquanto cresceram as importações de gás e petróleo. Para o professor de relações internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) Demétrius Pereira, as instabilidades atuais ajudam a explicar a retomada do debate.

"Na disputa por gás, a energia nuclear surge como alternativa interdependente. A França mantém uma matriz robusta nesse campo, enquanto a Alemanha segue o caminho oposto e agora volta a discutir sua retomada para reduzir a dependência externa", explica ao podcast Mundioka.

Segundo Pereira, a Europa tenta corrigir uma dependência histórica enquanto acelera uma transição energética que já estava em curso, mas ganhou urgência. “Não adianta reduzir a dependência do gás e ampliar o uso de petróleo ou carvão, que também são fósseis e não resolvem o problema estrutural”, afirma.

Nesse cenário, fontes como solar e eólica ganham protagonismo, ao lado de alternativas como biocombustíveis. A aposta em inovação também avança, com destaque para o hidrogênio verde, visto como uma das principais promessas para o futuro energético do continente. Ainda assim, o especialista salienta que a Europa se acomoda num modelo que hoje se mostra cada vez mais vulnerável às disputas geopolíticas e às rupturas nas cadeias globais de abastecimento.