ENERGIA NUCLEAR

'O Brasil precisa ser forte em todas as energias': o que falta para o salto nuclear brasileiro?

Por Sputinik Brasil Publicado em 16/03/2026 às 19:30
© AP Photo / Leo Correa

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil apontam potencial de expansão, investimentos bilionários e novos reatores, mas alertam para entraves regulatórios e falta de planejamento no setor.

No dia 10 de março, o Brasil aderiu à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear, iniciativa que busca mobilizar governos, indústrias e instituições financeiras para ampliar, até 2050, a capacidade instalada dessa fonte energética no mundo. A adesão ocorreu durante a 2º Cúpula sobre Energia Nuclear, em Paris, organizada pela França com apoio da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Assim, o país se torna um dos 38 países focados em ampliar essa fonte de base para garantir segurança energética e reduzir emissões de carbono, complementando fontes renováveis. A China, a Bélgica e a Itália também aderiram à iniciativa.

De acordo com o Itamaraty, a declaração — lançada durante a COP28 do clima, em Dubai — integra um esforço internacional para reforçar a segurança energética e responder ao aumento da demanda global por eletricidade, ao mesmo tempo em que busca acelerar a transição para fontes de baixa emissão de carbono.

Embora domine o ciclo do combustível nuclear, o Brasil ainda possui participação modesta dessa fonte em sua matriz elétrica. Atualmente, o país opera duas usinas — Angra 1 e Angra 2, em Angra dos Reis (RJ) — responsáveis por cerca de 3% da energia gerada nacionalmente. Ainda assim, a geração nuclear é considerada estratégica por oferecer produção contínua, elevada eficiência e reduzida emissão de gases de efeito estufa. O que ainda falta para um "salto nuclear" do Brasil?

"A adesão do Brasil à Declaração Internacional para triplicar a energia nuclear é mais um elemento para reforçar essa posição", afirma Celso Cunha, presidente da Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Atividades Nucleares (ABDAN). Segundo ele, o país já discute a expansão dessa fonte no planejamento energético de longo prazo.

"O Brasil acabou de lançar um Plano Nacional de Energia com horizonte até 2055, atualmente em consulta pública, que já sinaliza a possibilidade de alcançar cerca de 14 gigawatts de capacidade nuclear instalada", afirma Cunha. "Isso representa um avanço importante em relação ao parque nuclear atual do país".

Em uma estimativa, Cunha avalia que a expansão exigiria investimentos significativos, mas viáveis no cenário internacional, dizendo que para cada gigawatt novo — em uma usina do porte de Angra 3 — custa em torno de US$ 5 bilhões (cerca de R$ 26,9 bilhões). "Se considerarmos a meta de cerca de 14 gigawatts, estamos falando de aproximadamente dez novas usinas, o que representaria algo em torno de US$ 50 bilhões (cerca de R$261 bilhões) em investimentos no médio e longo prazo."

Para Cunha, esses projetos podem ser viabilizados por meio de financiamento externo. "Esse dinheiro é perfeitamente captável no mercado internacional. Existem bancos interessados em financiar e modelos de investimento bastante saudáveis para tornar esses projetos viáveis, com preços razoáveis”.

Cunha destaca que, caso o país avance com novos projetos além de Angra 1, Angra 2 e da futura Angra 3, a expansão poderia acrescentar cerca de 9 gigawatts adicionais ao sistema elétrico nacional. Para ele, a energia nuclear tem potencial para ajudar a estabilizar a rede elétrica em um cenário de crescimento das fontes renováveis intermitentes.

"Hoje o sistema enfrenta momentos de instabilidade com a variação da geração solar e eólica, além das limitações hídricas dos reservatórios e dos múltiplos usos da água. A energia nuclear entraria como uma luva para sustentar o sistema elétrico de forma contínua."

De acordo com o presidente da ABDAN, além da baixa emissão de carbono, as usinas nucleares oferecem geração constante e previsível, podendo operar por décadas e contribuir para a segurança energética de longo prazo do país. Contudo, essa iniciativa depende da vontade política e governança brasileira.

"A governança do setor está sofrível, muito ruim, em níveis que jamais poderíamos imaginar", diz Cunha. Segundo ele, é necessário atualizar o marco legal do setor. "Temos questões que são anteriores à própria Constituição e que precisam ser resolvidas. Se não avançarmos nessas mudanças, será muito difícil expandir o programa nuclear brasileiro."

Para o deputado federal Julio Lopes (PP-RJ), a adesão do Brasil à declaração internacional representa um sinal de maturidade do país no debate energético e pode ajudar a ampliar as perspectivas de investimento e inovação no setor. Lopes é integrante da comissão de Minas e Energia na Câmara.

"Acho que é uma declaração importante. É uma demonstração de maturidade do Brasil em relação à importância da energia nuclear no mundo", afirma o parlamentar. Segundo ele, o país precisa avançar em projetos já existentes e abrir espaço para novas tecnologias. "O Brasil precisa, de fato, concluir Angra 3 e avançar também para os pequenos e microreatores. Isso pode representar uma oportunidade enorme."

Apesar do potencial, Lopes avalia que o país ainda está distante de transformar essas iniciativas em projetos concretos. "Nesse momento, estamos um pouco longe da concretude, porque o governo federal ainda tem dificuldades de delimitar um plano de ação claro para a era nuclear", diz.

O deputado também aponta oportunidades para o uso da tecnologia em regiões isoladas do país, especialmente na Amazônia. Segundo ele, há dezenas de geradores movidos a diesel em operação em comunidades do Norte, principalmente ao longo das rotas fluviais, que poderiam ser substituídos por alternativas energéticas mais estáveis.

"Ali existe uma possibilidade enorme de utilizar baterias de grande porte ou reatores nucleares de pequeno porte, que seriam uma solução ideal para garantir abastecimento contínuo."

Para Lopes, além da atuação do Estado, a entrada de empresas privadas no desenvolvimento de novas tecnologias nucleares pode ajudar a acelerar o setor. O parlamentar cita iniciativas de companhias brasileiras como a JBS e a Diamante Energia, que vêm demonstrando interesse na área. A Diamante Energia, sediada em Santa Catarina, participa de projetos voltados ao desenvolvimento de micro-reatores nucleares.

"Você tem a JBS, que é uma empresa enorme, a maior processadora de carne do mundo, e também um grupo do Sul do país, ligado à área de carvão, que está entrando fortemente nesse campo", afirma Lopes, ao mencionar o avanço de iniciativas privadas no desenvolvimento de pequenos reatores. Para ele, essas tecnologias podem ampliar as aplicações da energia nuclear em diferentes setores da economia.

O deputado também aponta potencial de uso dos micro-reatores em atividades da Petrobras, especialmente em operações ligadas à exploração e produção de petróleo. Segundo Lopes, estudos sobre aplicações nucleares para perfuração e produção já são acompanhados pela diretoria da companhia, o que pode abrir novas frentes de desenvolvimento tecnológico no país.

Além disso, ele destaca projetos de pesquisa conduzidos por instituições brasileiras voltados ao desenvolvimento de micro-reatores, incluindo iniciativas que preveem instalações experimentais no estado do Rio de Janeiro, reforçando o potencial da tecnologia para diversificar a matriz energética nacional. Sobretudo, o parlamentar pontua que o país deve continuar investindo em diferentes tipos de energia, incluindo petróleo, hidrelétricas, renováveis e nuclear.

"Eu acho que o Brasil precisa ser forte em todas as energias."

A produção de petróleo ainda tem papel relevante para garantir estabilidade econômica e energética, sobretudo em momentos de instabilidade internacional. Lopes observa que conflitos geopolíticos podem afetar diretamente o preço do barril no mercado global, o que reforça a importância de manter a produção nacional.

O deputado também defende que o país continue ampliando sua capacidade de geração hídrica, que historicamente estruturou a matriz energética brasileira. Na avaliação dele, a redução do tamanho dos reservatórios e a adoção de usinas a fio d’água limitaram parte do potencial hidrelétrico nacional. "A área hídrica foi o que deu ao Brasil essa matriz energética limpa que temos hoje. Precisamos continuar trabalhando nisso e rever algumas decisões sobre reservatórios", diz.

Ao mesmo tempo, Lopes destaca o avanço recente das fontes renováveis, como solar e eólica, que já representam parcela significativa da geração elétrica no país e devem ganhar mais estabilidade com a realização de leilões de capacidade e projetos de armazenamento por baterias.

"Avançar na energia nuclear significa também avançar em todas as áreas científicas, industriais e tecnológicas associadas, um impacto estrutural enorme e difícil de mensurar, mas fundamental para elevar o patamar tecnológico do país no longo prazo", ressalta Astrid Cazalbon, pesquisadora e integrante do Grupo de Estudos sobre Segurança Energética (GESENE).

Cazalbon destaca que o cenário energético mundial mudou com a expansão da inteligência artificial e dos data centers, que demandam energia firme 24/7 em níveis comparáveis ao consumo de cidades inteiras, algo que abre uma oportunidade econômica significativa para o Brasil. Além disso, o Brasil ainda está começando a discutir tecnologias mais modernas da área, com a pesquisadora citando os Pequenos Reatores Modulares (SMRs), tema de audiência pública em 31 de março de 2026 na Câmara dos Deputados.

Segundo ela, a adesão do Brasil à Declaração para Triplicar a Energia Nuclear também pode ajudar a reduzir a distância tecnológica entre países emergentes e potências nucleares consolidadas. A iniciativa amplia o acesso a financiamento internacional — historicamente uma das maiores barreiras para novos projetos — e incentiva a cooperação técnica e regulatória entre os países signatários.

A pesquisadora ressalta que esse movimento já aparece em fóruns multilaterais como o BRICS, onde Rússia e China lideram a construção de reatores avançados e a Índia acelera a expansão de seu parque nuclear. "Esses espaços de cooperação permitem troca de conhecimento, fortalecimento da cadeia de suprimentos e criação de mecanismos de financiamento para novos projetos", explica.

Para Cazalbon, o alinhamento internacional tende a reduzir custos tecnológicos e facilitar o acesso a capital para países em desenvolvimento. Ela acrescenta que essas discussões ganham ainda mais relevância diante da expectativa de novos debates legislativos no país sobre o desenvolvimento e a regulamentação dos SMRs.

"Quando há cooperação regulatória, padronização tecnológica e financiamento multilateral, cria-se um ambiente muito mais favorável para a modernização do programa nuclear brasileiro."