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'Mundo caminha para a lei da selva', diz analista à Sputnik sobre ação dos EUA e Israel contra o Irã

Por Sputinik Brasil Publicado em 02/03/2026 às 18:36
© AP Photo

No último fim de semana, Estados Unidos e Israel iniciaram ataques contra o Irã que provocaram a morte do líder supremo iraniano aiatolá Ali Khamenei, além de diversas outras autoridades. Em retaliação, Teerã iniciou ações contra bases norte-americanas no Oriente Médio.

Em meio às negociações sobre o programa militar iraniano e mesmo com avanços nos diálogos, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, autorizou o início do conflito contra o país após semanas de tensões e ameaças. O especialista militar egípcio e general de brigada, Samir Ragab, pontua à Sputnik que ataque é ilegítimo. Segundo ele, o mundo vive um momento de inflexão na história da ordem internacional.

Para o especialista, o que se observa hoje não são simples operações militares passageiras, mas um desafio direto a toda a estrutura jurídico-internacional criada após a Segunda Guerra Mundial. Ragab destacou ainda que o que está ocorrendo representa um retorno claro à lógica de que "a força gera o direito", princípio que a Organização das Nações Unidas (ONU) tentou erradicar em 1945 para evitar guerras mundiais.

"A ONU foi criada justamente para impedir que grandes potências decidam unilateralmente atacar outros países. O Conselho de Segurança continua sendo o único órgão com autoridade internacional para autorizar o uso da força. A ausência desse mandato significa o retorno à lei da selva, onde qualquer regime pode sequestrar um presidente ou derrubar um Estado simplesmente alegando que ele representa uma ameaça", acrescentou o especialista.

O especialista egípcio explicou que o Artigo 2º da Carta da ONU proíbe explicitamente o uso da força contra a integridade territorial ou a independência política de qualquer Estado.

Aliado a isso, Ragab ressaltou que o verdadeiro perigo está no fato de que Washington hoje nem sequer tenta "maquiar" suas violações com justificativas jurídicas, como ocorreu no caso do Iraque. Pelo contrário, os Estados Unidos e o primeiro-ministro israelense Benjamin Netanyahu declaram abertamente o desejo de mudar o regime iraniano sem qualquer fundamento moral ou jurídico, o que torna o direito internacional "inexistente" para aqueles que detêm poder.

"As consequências serão catastróficas. Se o mundo aceitar que a América ataque o Irã e mude seu regime sem mandato da ONU, o que impedirá que outras potências façam o mesmo no futuro?", questionou, ao enfatizar que está em curso o desmonte das últimas restrições ao caos internacional, onde o uso da força passou a ser instrumento para alcançar interesses ilegítimos.

Padrão 'duplo' de atuação dos EUA sobre programas nucleares

O militar também apontou o que considera claros padrões duplos dos Estados Unidos. "Por que o programa nuclear do Irã se torna alvo, enquanto outros países que ingressaram no clube nuclear não recebem o mesmo tratamento?"..

Conforme o especialista, a política de Washington, ao marginalizar as organizações internacionais, leva à erosão da confiança na ordem mundial. "Isso poderá levar países mais fracos a buscar novas alianças ou até desenvolver armas nucleares para autodefesa, colocando o mundo em uma rota de conflito que pode culminar em uma Terceira Guerra Mundial", apontou.

Na avaliação de Ragab, os países do Golfo Pérsico enfrentam hoje uma questão difícil sobre a eficácia da presença militar norte-americana: para ele, a experiência prática mostrou que alianças tradicionais não conseguiram garantir a proteção necessária em momentos de crise real e, muitas vezes, acabaram arrastando a região para conflitos.

O general observou que uma ruptura total com o chamado "guarda-chuva norte-americano" é, neste momento, inviável devido à forte dependência de bilhões de dólares investidos em sistemas de armas, peças de reposição e treinamento. Ainda assim, destacou a necessidade de criar sistemas adicionais de defesa em cooperação com outras potências globais, que, com o tempo, deveriam se tornar o principal pilar da segurança.

O estrategista acrescentou que a criação de uma doutrina militar independente e de um sistema de armamentos "híbrido", nos moldes do modelo egípcio, que combina táticas orientais, ocidentais e locais, tornou-se uma necessidade urgente para garantir a segurança nacional.

"Washington adota agora uma nova versão da 'Doutrina Monroe' em escala global. Os Estados Unidos se consideram no direito de reconfigurar sistemas políticos onde quer que isso contrarie seus interesses, mirando regimes aliados de seus adversários, como Irã, Cuba e Venezuela", explicou.

Ragab observou ainda que as bases militares norte-americanas na região existem apenas para servir aos interesses estratégicos de Washington, e não para proteger os países anfitriões.

"A administração dos EUA não concedeu aos árabes margem suficiente para diversificar alianças, gerando tensão sempre que percebia tentativas de aproximação com Rússia, China ou Europa", disse o especialista.

Por fim, Ragab defendeu a ativação do Tratado de Defesa Conjunta dos Estados Árabes e a diversificação das fontes de armamento por meio de aquisições da China, Rússia, Coreia do Sul e União Europeia.