Escalada do conflito entre EUA e Irã pode diversificar mercado de petróleo, avalia presidente do IBP
Roberto Ardenghy destaca riscos à infraestrutura global e oportunidades para o Brasil diante da crise no Oriente Médio
A intensificação dos ataques no Oriente Médio ameaça não apenas o Estreito de Ormuz, mas toda a infraestrutura de produção e exportação de petróleo e gás da região. O alerta é de Roberto Ardenghy, presidente do Instituto Brasileiro do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (IBP), que também vê oportunidades para o petróleo brasileiro caso as restrições persistam.
Segundo Ardenghy, 80% do óleo extraído no Oriente Médio é escoado pelo Estreito de Ormuz, corredor estratégico por onde também transitam grandes volumes de Gás Natural Liquefeito (GNL) do Catar, Omã, Arábia Saudita e Irã. "Hoje há grande resistência dos armadores em cruzar o estreito", afirma.
O presidente do IBP informa que navios petroleiros já formam filas nos dois lados do canal, comprometendo parte do fluxo global. "As embarcações acima do Estreito aguardam para descer, enquanto as posicionadas abaixo do acesso aguardam para subir", explica.
"O Oriente Médio é importante pela exportação de petróleo, 80% do petróleo produzido é exportado pelo Estreito de Ormuz. Hoje em dia tem muita resistência das empresas de navegação de passarem por ali", reforça Ardenghy.
Países fortemente dependentes da região, como Índia e Japão, já buscam rotas e fornecedores alternativos. A China, embora conte com estoques elevados, tem limites para sustentar essa posição por muito tempo. A duração do impasse é incerta, mas o Brasil, com produção interna crescente, dispõe de maior segurança energética e pode conquistar espaço como fornecedor adicional no mercado internacional.
No entanto, caso o preço do barril permaneça pressionado — na sexta-feira, chegou a subir 13% antes de fechar com alta de 6,6% —, toda a cadeia será impactada: gasolina, diesel, Gás Liquefeito de Petróleo (GLP), querosene de aviação (QAV), insumos petroquímicos e fertilizantes podem sofrer reajustes.
A Petrobras, que desde maio de 2023 não repassa automaticamente a paridade internacional aos preços internos, deve segurar os aumentos no curto prazo. Contudo, se a tensão durar oito meses ou mais, a estatal poderá ser forçada a rever os valores. "O mercado se rearranja. Podemos ver o Brasil importando derivados da Índia", comenta Ardenghy.
Para o presidente do IBP, a crise reforça a necessidade de diversificação de mercados e de aceleração de projetos no pré-sal e em novas fronteiras. "Se estivéssemos na situação dos anos 1970, quando importávamos 90% do petróleo, o choque seria muito maior", pondera.
Ardenghy avalia ainda que manter reservas ociosas no país "parece equivocado". Ele defende que a exploração da Margem Equatorial e da Bacia de Pelotas, no norte e sul do Brasil, respectivamente, tornou-se ainda mais estratégica diante dos riscos externos.