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'Alcântara não está reservada aos EUA': Brasil aposta na diversificação espacial, dizem analistas

Por Por Sputinik Brasil Publicado em 02/03/2026 às 16:50
© AP Photo / Eraldo Peres

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil afirmam que cooperações com outros países podem gerar o know-how e novas tecnologias para exploração espacial brasileira, mas pontuam que deve ver haver maior integração entre setores de defesa, indústria e privado para chegar lá.

Durante sua visita de Estado na Coreia do Sul, o presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, afirmou que o Brasil quer ampliar seu acordo com a empresa aeroespacial sul-coreana Innospace para futuros lançamentos no Centro de Lançamentos de Alcântara (CLA), no Maranhão.

Apesar de uma anomalia em seu último lançamento em dezembro de 2025, o presidente brasileiro expressou que estaria disposto a tentar novamente, dizendo que o diálogo entre os dois países é "crucial para aprofundar essa colaboração inclusive no compartilhamento de dados de satélite em projetos de exploração lunar".

Com a Innospace já com planos de retomar lançamentos comerciais no primeiro semestre de 2026, o Brasil aposta na diversificação de parceiros estrangeiros para o desenvolvimento do setor de exploração espacial. Alcântara é conhecida por sua vantagem geográfica próximo a Linha do Equador, o que reduz o uso de combustível e aumenta eficácia em missões.

Além disso, os termos do acordo firmado entre Brasil e Estados Unidos — conhecido como Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) — influenciam diretamente a possibilidade do Brasil ampliar parcerias com outros países porque estabelecem regras específicas sobre o uso de tecnologias norte-americanas.

O AST prevê proteção de tecnologias sensíveis, restrições burocráticas em operações, além de protocolos adicionais de segurança, o que reforçam uma dependência estratégica a Washington. Em troca, o acordo permite ao Brasil atrair lançamentos estrangeiros e acumular experiência operacional.

Para Annibal Hetem, professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC (UFABC) vê que a entrada de novos operadores, como é o caso da Innospace, tende a acelerar o aprendizado operacional do Brasil, especialmente em integração de campanhas, segurança de voo e processos logísticos.

Contudo, isso não implica a transferência automática de tecnologias estratégicas, dizendo que acordos como Brasil-Coreia do Sul envolvem controle de exportação e cláusulas de propriedade intelectual que costumam limitar o acesso a dados e conhecimentos técnicos.

"Se a operação vier completamente 'pronta' do exterior, a participação brasileira pode se restringir a funções periféricas. [...] Para que haja desenvolvimento industrial consistente, é necessário prever contratos com conteúdo local mínimo, programas formais de capacitação e metas de nacionalização progressiva."

Outro especialista no tema, Antônio Gil Vicente de Brum, professor de engenharia aeroespacial da Universidade Federal do ABC, vê que as vantagens naturais de Alcântara – como sua localização próxima da Linha do Equador – ajudam o centro de lançamentos se tornar um hub global no futuro próximo. Contudo, gargalos estruturais como as condições da infraestrutura disponível ainda precisam ser superados.

"Grandes investimentos são necessários para que a base possa atingir a condição de centro global de lançamentos", afirma Vicente.

"Contratos novos, como o que se deseja firmar com a Innospace da Coreia do Sul, poderiam ajudar muito nisso, no sentido da geração de recursos por renovação, modernização e outras melhorias na base e entornos." Complementando o professor, Hetem diz que seria necessário integração entre defesa, indústria e setor privado para chegar a esse objetivo.

O professor ressalta que Alcântara é apenas uma parte do programa espacial brasileiro e que os compromissos internacionais são fundamentais para a credibilidade do país. "Essa é uma diretriz fundamental adotada pelo governo brasileiro que lhe permite, aliás, confiabilidade para assinatura de tais acordos".

"Em outros setores das atividades espaciais, a soberania é fortalecida com o estabelecimento de parcerias em áreas estratégicas para o Brasil, como o desenvolvimento e operação de satélites de sensoriamento remoto para monitoramento do vasto território nacional, fronteiras e costas, caso do programa CBERS com a China, além do monitoramento da floresta Amazônica."

Para Pedro Martins, professor e doutorando em Relações Internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a cooperação brasileira com outros países não representa um rompimento com o Acordo de Salvaguardas Tecnológicas (AST) — já que a própria parceria com a Coreia do Sul só foi possível após sua assinatura —, mas sim um movimento gradual de redução da dependência em relação aos Estados Unidos.

"Não é um rompimento, mas um afastamento. Isso fica muito claro no acordo com a Coreia do Sul."

Brasil e Coreia do Sul compartilham trajetórias históricas semelhantes de desenvolvimento acelerado e redemocratização, o que favorece a aproximação estratégica entre os dois países.

"A Coreia do Sul ainda é um aliado dos EUA, mas também vem revendo aspectos dessa parceria, especialmente após dificuldades recentes no relacionamento com Washington. Tanto o Brasil quanto a Coreia veem um no outro uma forma de ganhar mais autonomia e espaço internacional".

Martins ressalta, contudo, que esse movimento não configura uma ruptura definitiva. "É um afastamento, mas não chega a ser um rompimento. No caso brasileiro, esse esforço só é viabilizado justamente pelo AST em Alcântara, e a Coreia do Sul também não deixou de ser aliada dos Estados Unidos."

"O que existe é um diagnóstico comum de que os EUA nem sempre são um parceiro totalmente confiável."