Irã não será como Iraque em 2003, afirma analista à Sputnik Brasil
À Sputnik Brasil, Robinson Farinazzo, capitão da reserva da Marinha do Brasil, analisa os ataques de Estados Unidos e Israel ao Irã, afirma que o conflito era esperado após o fracasso das negociações e avalia que o cenário internacional atual torna a escalada militar mais imprevisível e arriscada do que em crises anteriores no Oriente Médio.
Segundo o analista, o principal motivador para o ataque estadunidense ao Irã é Israel que, nas palavras do capitão da reserva da Marinha Robinson Farinazzo, “quer a queda do regime dos aiatolás” e teria pressionado Washington a aderir à ofensiva como parte dos objetivos estratégicos do governo de Benjamin Netanyahu na região.
Na avaliação do especialista, embora setores do establishment militar norte-americano demonstrem resistência a uma nova guerra no Oriente Médio, "o lobby israelense nos Estados Unidos é muito forte", afirma.
Para Farinazzo, a escalada militar já era esperada diante do fracasso das negociações diplomáticas entre Washington e Teerã. “As demandas dos Estados Unidos são impossíveis de o Irã atender. Se atender, eles caem como o Saddam caiu, como o Gaddafi caiu”, afirmou, ressaltando que anos de tentativas frustradas de acordo nuclear indicavam que uma solução negociada era improvável no curto prazo.
O analista avalia ainda que o cenário internacional atual torna o conflito mais complexo do que intervenções anteriores dos Estados Unidos no Oriente Médio. “Você tem um mundo diferente hoje, uma China muito mais forte, uma Rússia que voltou ao cenário internacional, e o Irã não é o Iraque de Saddam Hussein”.
Segundo ele, a presença de múltiplos pólos de poder aumenta a imprevisibilidade e reduz as chances de uma vitória rápida semelhante às expectativas norte-americanas em conflitos passados.
Nesse contexto, Farinazzo rejeita comparações entre o Irã atual e o Iraque de 2003. “O Irã não é o Iraque. O Iraque era um exército enfraquecido por 12 anos de sanções”, afirmou. Ele destacou que o país possui autonomia tecnológica e militar relevante, incluindo programas avançados de mísseis e drones. “O Irã tem o melhor programa de mísseis do Oriente Médio” e capacidade própria de desenvolvimento militar, o que ampliaria sua possibilidade de resistência.
Segundo o especialista, o fator decisivo da guerra será a duração do conflito. “Vai ganhar quem ficar na mesa mais tempo”, avaliou. Para ele, caso o Irã consiga sustentar a resistência por semanas ou meses, os custos políticos para Washington tendem a crescer.
“Como explicar para o público americano que se gasta mais de um trilhão de dólares por ano e não conseguem submeter um país sob sanções há 47 anos?”.
Farinazzo também destacou que a ampla presença militar dos Estados Unidos na região amplia os riscos de retaliação. “É mais fácil dizer onde os Estados Unidos não têm presença”, afirmou, citando bases espalhadas pelo Golfo Pérsico e pelo Oriente Médio.
Segundo ele, essas instalações funcionam como garantidoras da segurança de governos aliados, especialmente das monarquias do Golfo, cujos vínculos estratégicos e financeiros reforçam a dependência em relação a Washington. “Os governos dependem muito dos Estados Unidos”, disse, lembrando que parte significativa dos ativos dessas monarquias está depositada em bancos ocidentais.
O analista também alertou para possíveis impactos econômicos globais caso o conflito se amplie. “Se o Irã fechar o Estreito de Ormuz, vai haver uma paulada na economia”, afirmou, destacando o risco de alta expressiva nos preços do petróleo e efeitos em cadeias produtivas internacionais.
Atualmente, cerca de 20% do petróleo mundial passa por esta rota marítima, assim como aproximadamente 20% a 25% do comércio global de gás natural liquefeito.
Diante do cenário, Farinazzo avalia que ainda é impossível prever o desfecho da crise. “A gente analisa tendências, mas é muito difícil fazer um prognóstico”, disse. Segundo ele, uma guerra prolongada pode produzir o efeito contrário ao pretendido pelos Estados Unidos, fortalecendo internamente o regime iraniano ao “galvanizar a população em torno do governo” diante de ataques externos.
“O risco que os Estados Unidos correm é o de galvanizar a sociedade iraniana em torno do aiatolá, que antes era relativamente dividida. Sinceramente, não dá para saber como isso vai terminar, mas a ofensiva pode acabar reforçando, indiretamente, a legitimidade dos aiatolás.”