Quando a escola expõe: o racismo que atravessa gerações e desafia a educação brasileira
Diante de toda a turma, uma professora me perguntou se eu me sentia inferior por ser a única menina negra da sala. Eu não tinha maturidade emocional para compreender o peso daquela pergunta. Meu corpo ficou tenso, minha voz saiu baixa e eu respondi, com medo e muita insegurança, que não me sentia inferior, embora naquele instante fosse exatamente assim que eu me sentia.
Era por volta de 1986. Durante anos, essa lembrança permaneceu guardada como um episódio desconfortável da infância. Hoje entendo que aquela cena não foi um fato isolado. Foi a expressão cotidiana de um racismo estrutural que atravessa instituições e se manifesta de forma silenciosa, muitas vezes naturalizada. Não houve ofensa explícita. Houve exposição. Houve constrangimento. Houve a marcação pública de uma diferença racial que me colocava em posição de exceção.
Décadas depois, o Brasil avançou no campo legal. A Lei 10.639 de 2003, ampliada pela Lei 11.645 de 2008, tornou obrigatório o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira, Africana e Indígena nas escolas. O texto da lei reconhece que a educação é peça-chave no enfrentamento ao racismo estrutural e na construção de uma sociedade mais equitativa. No entanto, os números mostram que a distância entre legislação e prática ainda é significativa. Entre 2024 e 2025, foram registradas ocorrências relacionadas à injúria racial e discriminação em escolas estaduais da cidade de São Paulo, segundo dados divulgados por órgãos oficiais de segurança pública e educação. O ambiente que deveria garantir formação e proteção continua sendo espaço de violência simbólica e, muitas vezes, explícita contra estudantes negros.
Para compreender como essas dinâmicas persistem, conversei com a psicóloga Camila Nascimento Barbosa, formada pela Universidade Cruzeiro do Sul, com atuação na área de psicologia clínica, desenvolvimento humano e saúde mental da população negra. Camila desenvolve estudos e práticas voltadas ao enfrentamento do racismo institucional, com ênfase em letramento racial e nos impactos psicossociais da discriminação no ambiente educacional.
Ela explicou que o racismo na escola nem sempre se apresenta em forma de insulto direto. Muitas vezes surge em perguntas constrangedoras, na ausência de representatividade no currículo, na invisibilização de referências negras ou na naturalização de estereótipos. Segundo Camila, o letramento racial é um processo fundamental para que educadores reconheçam seus próprios vieses e compreendam como práticas aparentemente neutras podem produzir danos profundos.
A psicóloga ressalta que crianças e adolescentes negros expostos a situações de inferiorização podem internalizar sentimentos de inadequação que atravessam toda a vida escolar e impactam sua autoestima, seu desempenho acadêmico e sua construção identitária. Para ela, a existência da lei é um avanço importante, mas não basta. É preciso formação continuada, revisão pedagógica e compromisso institucional real com a equidade racial.
Ao revisitar aquela memória de 1986, percebo que o que vivi não foi exceção. Foi parte de uma engrenagem maior, que insiste em operar mesmo após avanços legais. Mais de trinta anos depois, ainda precisamos reafirmar que meninas negras não devem ser colocadas em posição de justificativa pública sobre sua própria existência.
O Brasil avançou na norma. Mas a transformação cultural, pedagógica e institucional ainda caminha em ritmo lento. Enquanto o racismo continuar sendo tratado como episódio isolado e não como estrutura histórica, a escola seguirá falhando com mulheres, crianças e meninas negras.
A pergunta que me fizeram naquela sala de aula não deveria ter sido feita. E a pergunta que permanece, para todos nós, é outra: até quando a escola continuará ensinando, de forma silenciosa, quem pode ocupar o centro e quem deve aprender a se encolher? Se desejar, posso fazer agora uma última revisão de ritmo e impacto para publicação digital, ajustando pequenos cortes para deixar a leitura ainda mais potente e fluida.

Sobre Leia Abadia
Leia Abadia é empresária e fundadora do Preta Brasileira, salão especializado em cabelos crespos e cacheados criado em 2010 na zona leste de São Paulo. Ao lado das irmãs, transformou o negócio em referência em autoestima e valorização da estética afro.
Também é idealizadora da Ibraid, plataforma que conecta trancistas e clientes, unindo tecnologia e ancestralidade para gerar inclusão e oportunidades no setor da beleza.