Taxas sobem e curva perde inclinação após IPCA-15 acima do esperado
Inflação acima das projeções eleva juros futuros e reduz apostas em cortes agressivos na Selic
O IPCA-15 de fevereiro surpreendeu o mercado ao registrar alta acima de todas as estimativas, influenciando diretamente o comportamento da curva de juros. O movimento foi marcado por elevação das taxas e perda de inclinação ao longo do pregão desta sexta-feira. No acumulado semanal, apenas o vértice intermediário da curva apresentou leve alta, enquanto em fevereiro os contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs) recuaram, impulsionados pela valorização do real frente ao dólar e por pesquisas que indicam maior polarização na disputa eleitoral de 2026.
Apesar do cenário, a maioria dos agentes ainda aposta em um corte de 0,50 ponto percentual na Selic em março, embora a probabilidade tenha caído de quase 100% para 85% desde a última quinta-feira. O orçamento de cortes para o ano também foi revisto, com a precificação da Selic para o fim de 2026 subindo para 12,25%, ante 12,10% na semana passada, segundo Flávio Serrano, economista-chefe do Banco BMG. Dessa forma, não houve alteração relevante em relação ao que já era esperado no início do dia.
No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2027 avançou para 13,28%, ante 13,179% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2029 subiu para 12,645%, frente a 12,536%, e o contrato para janeiro de 2031 atingiu 13,035%, contra 12,953% no ajuste anterior.
"O IPCA-15 bagunçou tudo, chegou a mexer na expectativa de call do Copom na próxima reunião", afirma Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez. Segundo ele, a surpresa inflacionária levou o mercado a descartar a possibilidade de corte de 0,75 ponto percentual na Selic em março, e algumas instituições já discutem a hipótese de um corte menor, de apenas 0,25 ponto percentual.
O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo - 15 (IPCA-15) subiu 0,84% em fevereiro, após 0,20% em janeiro, superando o teto das estimativas do Projeções Broadcast, que era de 0,69%. Em 12 meses, o índice acumulou alta de 4,10%, acima do teto projetado de 3,95%.
Diante da surpresa, a Ativa Investimentos revisou a projeção para o IPCA fechado de fevereiro, de 0,50% para 0,65%. Guilherme Souza, economista da Ativa, destaca que o núcleo de serviços subjacentes, que exclui passagens aéreas, avançou 0,65% (superando a estimativa de 0,50%), e que outras medidas de núcleos também vieram mais fortes.
Souza pondera, no entanto, que o IPCA-15 isoladamente não deve alterar a expectativa de corte de 0,50 ponto percentual na Selic pelo Copom em março, pois o Relatório de Política Monetária do Banco Central já projetava variação de 0,60% para o mês.
Para León Santiago Lucas, head de renda fixa da Ville Capital, a desinclinação da curva indica ajuste das projeções diante de uma inflação corrente mais pressionada. “A alta nos DIs reflete a percepção de que o Banco Central pode ter menos espaço para cortes agressivos na taxa Selic se a inflação de serviços continuar resiliente”, avalia.