MERCADO AUTOMOTIVO

Veículos chineses superam os argentinos no Brasil: quais são os impactos além da economia? (VÍDEOS)

Por Sputinik Brasil Publicado em 27/02/2026 às 12:24
© Luciano Carcara/BYD

A importação de automóveis da China ultrapassou os da Argentina no mercado brasileiro, representando uma mudança de paradigma, já que a importação dos automóveis do país vizinho era tradicional. No entanto, a relação distante entre Brasília e Buenos Aires e a vantagem econômica chinesa no setor podem configurar uma nova dinâmica na região.

Parceiros políticos e comerciais históricos na América do Sul e membros fundadores do Mercosul, Brasil e Argentina começaram a se distanciar no âmbito político-ideológico quando Jair Bolsonaro (2019–2022) e Alberto Fernández (2019–2023) estavam à frente de seus respectivos países. A reaproximação aconteceu por um curto período quando Lula tomou posse novamente como presidente do Brasil, em 2023.

No entanto, a eleição de Javier Milei pelos argentinos no mesmo ano voltou a afastar os dois vizinhos, tanto que Milei chegou a recusar o convite para ingressar no BRICS, que havia sido feito por intermédio brasileiro junto aos seus pares no grupo.

Apesar das discordâncias e troca de farpas entre seus líderes, as duas nações sul-americanas seguiram com seu fluxo comercial em áreas estratégicas, como o setor automotivo.

Todavia, Pequim já se destaca como o principal exportador de veículos para o Brasil, segundo dados da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). O aumento de carros importados subiu 6,6% em 2025, sendo que o gigante asiático responde por 37,6% desse total. Foi a primeira vez que o Mercosul e o México não encabeçaram esse fluxo.

Para Beatriz Bandeira de Mello, doutora em relações internacionais pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), além da vantagem econômica oferecida pelos chineses, o distanciamento entre o Planalto e a Casa Rosada contribui para que a proximidade geográfica e o princípio de integração regional sejam deixados de lado. Com isso, outros parceiros podem ganhar mais espaço no mercado brasileiro.

"Obviamente há uma questão interna no Brasil e na Argentina. Os dois países vivem um momento de relação estremecida pela questão ideológica e optaram por estratégias distintas de diversificação de parceiros econômicos. Enquanto Brasília foca em um mercado, Buenos Aires mira outro. A dimensão política está muito atrelada às esferas econômica e comercial, não tem como separar", disse.

Argentina foca nos EUA e se limita

A especialista também destaca que o alinhamento automático da Argentina com a Casa Branca é um fator que traz mais desvantagens do que benefícios no cenário internacional para o país sul-americano. Ao sempre se subordinar aos interesses de Washington, acaba perdendo a oportunidade de diversificar parceiros comerciais e, principalmente, estreitar laços com parceiros regionais, sobretudo aqueles que estão em seu entorno estratégico.

"A Argentina se limita ao selecionar parceiros ideologicamente compatíveis, como ocorre com os Estados Unidos. Isso não seria um problema, desde que o interesse nacional estivesse em primeiro plano. Mas o que a gente observa é que o governo argentino deixa isso de lado para ser o fiel escudeiro dos EUA na região", analisou Bandeira de Mello.

Segundo ela, tal situação "é algo radical e provoca uma cisão interna no Mercosul e distanciamento de outros fóruns regionais, como a CELAC".

A analista também aponta que a distância entre Brasil e Argentina, principais estados na América do Sul no âmbito político e econômico, dificulta uma coordenação regional que poderia envolver outros países em prol de um desenvolvimento conjunto em nível continental.

"Para a integração regional avançar, seria necessário que Brasil e Argentina, estejam em momentos compatíveis e pró-ativos no sentido de colocar a integração como um pilar da política externa. Mas isso não vem acontecendo. No cenário atual, há uma distensão, que impede que se alcance um consenso com um nível mínimo de coordenação", comentou.

Brasil pode ser 'plataforma chinesa' na região

Outro ponto a ser considerado é que o Brasil, país de proporções continentais e com grande mercado consumidor, tende a ser uma importante plataforma de inserção e consolidação dos automóveis com tecnologia chinesa. Nesse aspecto, a especialista comenta que o modelo de produção local e consumo no mercado automobilístico sul-americano deverá ser remodelado.

"Nesse mercado de carros, principalmente os elétricos, eu vejo o Brasil como parte da estratégia chinesa de exportação para todos os países da região. Há uma facilidade maior dessas montadoras chinesas penetrarem no mercado brasileiro e baratear o custo", pontuou.

Além disso, conforme a analista, "essas empresas também desenvolvem os parques industriais, o que dialoga muito com o propósito do governo brasileiro, que busca aporte internacional para desenvolver a indústria nacional".

Nesse panorama, enquanto a especialista prevê que o Brasil caminha para se tornar o principal hub desse novo modelo de modernização da produção e consumo de automóveis, a indústria argentina deve passar por desafios devido à política interna, e os demais países da região devem se manter atrelados aos veículos por combustão num primeiro momento.

"Pensando nas políticas do governo Milei, há uma semana houve uma greve geral devido às reformas trabalhistas, o que fez com que a produção nacional parasse por três dias. O que pode acontecer é uma concentração maior de carros a combustão no mercado local, enquanto o Brasil deve concentrar mais a produção de modelos elétricos e híbridos", concluiu.

Em um cenário internacional cada vez mais multipolar e acirrado, as alianças regionais estão cada vez mais fragmentadas e polarizadas na cooperação intercontinental. Apesar das vantagens econômicas, interesses geopolíticos também são fundamentais para a manutenção ou ampliação de determinada relação bilateral, que pode alterar a dinâmica do mercado interno de um país e de seu entorno.