SAÚDE MENTAL

Nos países mais felizes do mundo, limitar o celular virou estratégia de bem-estar

Após imersão na Finlândia e Dinamarca, a pesquisadora da Ciência da Felicidade Renata Rivetti traz reflexões sobre as políticas nórdicas de atenção e os impactos da hiperconectividade no bem-estar

Por Cowork Comunicação Publicado em 26/02/2026 às 22:16
Renata Rivetti Reprodução / Instagram

São Paulo, fevereiro de 2026 — Ter o celular sobre a mesa durante uma reunião reduz em até 15% a capacidade cognitiva disponível, mesmo desligado e com a tela virada para baixo. O dado, levantado por pesquisadores da Åbo Akademi e apresentado durante imersão realizada por Renata Rivetti na Finlândia e na Dinamarca, resume o argumento que vem sustentando uma das transformações mais silenciosas nos países que lideram o World Happiness Report: a proteção do foco como política de Estado.

Rivetti, pesquisadora da Ciência da Felicidade, TEDx Speaker e autora do livro O Poder do Bem-Estar, esteve nos dois países nórdicos recentemente para estudar de perto os conceitos de Sisu — a resiliência finlandesa diante da adversidade — e Hygge — a arte dinamarquesa de cultivar segurança emocional e pertencimento. O que ela encontrou foi uma terceira camada: uma relação deliberada e culturalmente enraizada com os limites da hiperconectividade.

O celular que ninguém apagou

“O mecanismo é fisiológico, não comportamental. O cérebro humano não consegue ignorar a possibilidade de uma notificação. Mesmo sem som, mesmo sem toque, o aparelho sobre a mesa mantém o sistema nervoso em estado de alerta permanente, um processo que consome recursos cognitivos de forma constante e silenciosa”, explica a pesquisadora.

Pesquisas apresentadas durante a imersão apontam que esse estado de monitoramento inconsciente alimenta o que a literatura sobre produtividade chama de shallow work: tarefas realizadas com atenção fragmentada, que criam a ilusão de eficiência enquanto produzem zero novo valor. No longo prazo, o padrão se traduz em menor profundidade analítica, dificuldade de raciocínio estratégico, aumento de erros e exaustão mental acelerada.

Biologia versus conexão permanente

Outro ponto central observado na imersão diz respeito ao que se chama de "realidade biológica do sistema". “O cérebro opera em ciclos naturais de ativação e recuperação e pausas não são sinal de improdutividade, mas mecanismos essenciais de processamento”, afirma Rivetti.

Os estudos apresentados durante os encontros organizam esse funcionamento em três protocolos complementares: energia (movimento físico, exposição à luz, estímulos corporais); reset (silêncio, respiração, redução de estímulos); e conexão,  interação social real, sem mediação constante de telas. Sem esses ciclos, o sistema nervoso permanece em hiperativação. O efeito é conhecido: queda de foco, irritabilidade, decisões de pior qualidade e um cansaço que não se resolve com uma noite de sono.

De comportamento individual a decisão política

Na Finlândia e na Dinamarca, as políticas de desconexão digital já integram a cultura de empresas e órgãos públicos e mesmo na vida social as pessoas não ficam com o celular. “Essa mudança cultura faz com que o senso de ansiedade que o celular traz seja combatido no dia a dia”, explica a pesquisadora. 

Paralelamente, avança o debate sobre literacia digital para todas as faixas etárias. A questão não é apenas o acesso à tecnologia, mas o desenho dos ambientes digitais e os incentivos que eles constroem, uma discussão que, nos países nórdicos, já transbordou das escolas para o mundo corporativo e para as políticas públicas.

No Brasilo país aprovou em 2024 restrições ao uso de celulares em escolas públicas federais, mas a implementação ainda é fragmentada. No ambiente corporativo, o debate sobre desconexão nem começou, mesmo com a entrada em vigor, em 2025, da NR-01, norma que exige das empresas ações preventivas em saúde mental.

A principal provocação que emerge da imersão de Rivetti é direta: felicidade não é ausência de desafio, mas a capacidade de atravessá-lo com suporte coletivo e previsibilidade social. Em um cenário de hiperestimulação permanente, proteger a atenção deixou de ser escolha individual e passou a ser uma decisão cultural e institucional. É o que os países mais felizes do mundo já entenderam.

Renata Rivetti é pesquisadora da ciência da felicidade, TEDx speaker, LinkedIn Top Voice, e autora do “O Poder do bem-estar: um guia para redesenhar o futuro do trabalho” pelo selo Objetiva da Companhia das Letras. Após anos como executiva de marketing, fez uma transição de carreira e hoje é referência nos temas felicidade, relações humanas, liderança humanizada, saúde mental e futuro do trabalho.