GEOPOLÍTICA

Aproximação de Reino Unido e Canadá com China preocupa mais os EUA, avaliam especialistas

Analistas apontam que maior risco da aproximação de Londres e Ottawa com Pequim recai sobre interesses dos Estados Unidos, não sobre os próprios países.

Por Sputinik Brasil Publicado em 26/02/2026 às 16:30
Aproximação de Reino Unido e Canadá com China intensifica preocupações dos Estados Unidos. © AP Photo / Kin Cheung

Durante a visita do primeiro-ministro britânico, Kevin Stramer, a Pequim, o presidente dos EUA, Donald Trump, classificou o episódio como "muito perigoso". Especialistas ouvidos pelo podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analisam os impactos desse movimento no cenário das grandes potências.

Para Marcos Vinicius Figueiredo, professor de relações internacionais do Ibmec Rio, o discurso do chefe da Casa Branca sugere que a aproximação com a China seria arriscada para Reino Unido e Canadá. No entanto, ele ressalta que os riscos reais recaem sobre os próprios Estados Unidos.

"Não há nenhum perigo para o Reino Unido nem para o Canadá fazerem esse movimento. Mas os EUA de Trump interpretam esse movimento como desinteressante para eles." Segundo Figueiredo, a aproximação pode abrir portas para o acesso chinês a setores estratégicos como tecnologia, infraestrutura crítica, dados e energia, o que desperta preocupação em Washington.

Por outro lado, os países anglófonos buscam estabilidade, algo que, na visão dos analistas, o governo Trump não tem garantido.

Alexandre Coelho, coordenador do curso de pós-graduação em política e relações internacionais da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo e ex-consultor jurídico do Banco da China, destaca que, enquanto "Washington alterna tarifas e sanções de forma imprevisível", Pequim mantém uma postura de continuidade contratual em projetos econômicos.

"Os EUA não conseguem mais dar essa previsibilidade", afirma Coelho.

Segundo o especialista, "para o mercado financeiro internacional e para a indústria internacional, a previsibilidade é fundamental".

Figueiredo acrescenta que, "apesar das diferenças civilizacionais e culturais entre China e países ocidentais, como Reino Unido e Canadá", Pequim oferece uma estabilidade que se tornou rara em um sistema internacional cada vez mais convulsionado.

Mundo multipolar está sendo colocado em prática?

Questionados se a multipolaridade deixou de ser apenas um discurso para se tornar realidade, ambos os analistas concordam que esse novo cenário já se impõe e exige respostas.

Para Coelho, no campo comercial e econômico, a multipolaridade já é uma realidade manifesta. Contudo, no âmbito militar, o mundo permanece unipolar.

"Precisamos observar onde está essa multipolaridade. No setor militar, ela ainda não existe, pois os Estados Unidos continuam sendo a maior potência militar do mundo, mesmo com os avanços de China e Rússia", explica.

Figueiredo, por sua vez, afirma que o mundo já não é mais unipolar e questiona: "Como os Estados Unidos vão lidar com isso?"

"O discurso de 'Make America Great Again' é um sintoma de que eles já reconhecem que não são tão grandes assim", observa.

Segundo ele, há um reconhecimento interno nos EUA de que o país precisará compartilhar poder. Entretanto, a ascensão da multipolaridade enfraquece instituições multilaterais criadas sob a liderança norte-americana.

"As Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio e outras instituições globais tendem a perder força devido à existência de múltiplos polos, o que dificulta o consenso. É algo que já podemos observar", conclui.