Buraco das Araras: de local de desova a exemplo de preservação em MS
Antigo lixão e ponto de desova, a dolina em Jardim (MS) virou reserva referência em proteção de araras e ecoturismo.
A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Buraco das Araras, situada em Jardim, Mato Grosso do Sul, tornou-se símbolo nacional de conservação ambiental — mas nem sempre foi assim.
Com 29 hectares, a reserva é hoje refúgio fundamental para a fauna local, especialmente para as araras-vermelhas. Antes da transformação, porém, a dolina integrava uma propriedade rural e era usada como lixão a céu aberto, chegando a servir como local de desova de corpos.
O atual proprietário, Modesto Sampaio, relembra que adquiriu a área em 1986, sem conhecer o potencial ecológico do Buraco das Araras. Apenas em 2012, após uma medição técnica, descobriu a relevância ambiental do local e decidiu investir em sua preservação e no ecoturismo.
“Eu sou pantaneiro, nasci no Pantanal. Quando comprei a propriedade, buscava algo mais próximo da minha essência, longe da cidade. Queria sustentar minha família e, ao mesmo tempo, estar em contato com a natureza”, conta Modesto.
“Quando comprei a terra, sabia apenas que havia um buraco, mas não sabia o que isso significava […]. Na época em que compramos, as araras tinham abandonado o local. O buraco estava sendo usado como lixão, mas, com o trabalho de preservação, elas voltaram.”
Segundo ele, a ausência de infraestrutura para visitantes foi um dos fatores que impulsionaram a criação do ponto turístico.
A bióloga Salete Cinti destaca que, no início do processo de restauração, “a área estava bastante degradada”.
Originalmente parte de uma fazenda de pecuária, a propriedade foi batizada de Fazenda Alegria antes de ser convertida em reserva permanente.
Além das araras, espécies como cateto, tatupeba e tatu-galinha também se beneficiaram da restauração da vegetação. “Com o tempo e o crescimento da vegetação, as araras voltaram. Isso é muito gratificante”, afirma Salete.
O ecossistema local tem uma peculiaridade: as araras utilizam rochas calcárias para auxiliar na digestão de sementes duras. “Essas rochas são essenciais para a dispersão de sementes na área”, explica a bióloga.
O turismo sustentável tornou-se fundamental para a economia local, atraindo visitantes do Brasil e do exterior interessados em observar as araras e percorrer trilhas ecológicas.
Para preservar a reserva, os visitantes seguem regras rigorosas, como uso de calçados fechados, repelente e acompanhamento obrigatório de guias nas trilhas.
Apesar dos avanços, a reserva ainda enfrenta riscos, principalmente o fogo. Salete alerta que, embora queimadas sejam naturais do Cerrado, a intensificação da atividade humana aumentou o risco de incêndios. “Quando o fogo atinge a vegetação, as plantas não morrem imediatamente, mas as consequências podem ser graves”, adverte.
“A preservação deste lugar depende muito da colaboração de todos. A nossa luta é constante, e cada um de nós tem um papel importante nesse processo.”