MEIO AMBIENTE

Buraco das Araras: de local de desova a exemplo de preservação em MS

Antigo lixão e ponto de desova, a dolina em Jardim (MS) virou reserva referência em proteção de araras e ecoturismo.

Por Por Sputinik Brasil Publicado em 25/02/2026 às 16:34
Vista aérea do Buraco das Araras, refúgio de araras e símbolo de preservação ambiental em Jardim (MS). © Sputnik / Guilherme Correia

A Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Buraco das Araras, situada em Jardim, Mato Grosso do Sul, tornou-se símbolo nacional de conservação ambiental — mas nem sempre foi assim.

Com 29 hectares, a reserva é hoje refúgio fundamental para a fauna local, especialmente para as araras-vermelhas. Antes da transformação, porém, a dolina integrava uma propriedade rural e era usada como lixão a céu aberto, chegando a servir como local de desova de corpos.

O atual proprietário, Modesto Sampaio, relembra que adquiriu a área em 1986, sem conhecer o potencial ecológico do Buraco das Araras. Apenas em 2012, após uma medição técnica, descobriu a relevância ambiental do local e decidiu investir em sua preservação e no ecoturismo.

“Eu sou pantaneiro, nasci no Pantanal. Quando comprei a propriedade, buscava algo mais próximo da minha essência, longe da cidade. Queria sustentar minha família e, ao mesmo tempo, estar em contato com a natureza”, conta Modesto.

“Quando comprei a terra, sabia apenas que havia um buraco, mas não sabia o que isso significava […]. Na época em que compramos, as araras tinham abandonado o local. O buraco estava sendo usado como lixão, mas, com o trabalho de preservação, elas voltaram.”

Segundo ele, a ausência de infraestrutura para visitantes foi um dos fatores que impulsionaram a criação do ponto turístico.

A bióloga Salete Cinti destaca que, no início do processo de restauração, “a área estava bastante degradada”.

Originalmente parte de uma fazenda de pecuária, a propriedade foi batizada de Fazenda Alegria antes de ser convertida em reserva permanente.

Além das araras, espécies como cateto, tatupeba e tatu-galinha também se beneficiaram da restauração da vegetação. “Com o tempo e o crescimento da vegetação, as araras voltaram. Isso é muito gratificante”, afirma Salete.

O ecossistema local tem uma peculiaridade: as araras utilizam rochas calcárias para auxiliar na digestão de sementes duras. “Essas rochas são essenciais para a dispersão de sementes na área”, explica a bióloga.

O turismo sustentável tornou-se fundamental para a economia local, atraindo visitantes do Brasil e do exterior interessados em observar as araras e percorrer trilhas ecológicas.

Para preservar a reserva, os visitantes seguem regras rigorosas, como uso de calçados fechados, repelente e acompanhamento obrigatório de guias nas trilhas.

Apesar dos avanços, a reserva ainda enfrenta riscos, principalmente o fogo. Salete alerta que, embora queimadas sejam naturais do Cerrado, a intensificação da atividade humana aumentou o risco de incêndios. “Quando o fogo atinge a vegetação, as plantas não morrem imediatamente, mas as consequências podem ser graves”, adverte.

“A preservação deste lugar depende muito da colaboração de todos. A nossa luta é constante, e cada um de nós tem um papel importante nesse processo.”