LITERATURA

Myriam Scotti consolida-se como uma das vozes mais sensíveis e consistentes da literatura amazônica contemporânea

Escritora amazonense fortalece presença nacional com obras que unem memória, história e a paisagem da Amazônia

Por Neide Martingo Publicado em 25/02/2026 às 17:03
Myriam Scotti consolida-se como uma das vozes mais sensíveis e consistentes da literatura amazônica contemporânea

Myriam Scotti é escritora, mestre em Literatura e crítica literária

A escritora amazonense Myriam Scotti, nascida em Manaus e mestre em Literatura e Crítica Literária pela PUC-SP, vem consolidando uma obra marcada pela força da memória, das relações familiares e pela presença incontornável da Amazônia — não como cenário exótico, mas como organismo vivo que molda afetos, conflitos e modos de existir. Desde 2014, ela se dedica exclusivamente à literatura, publicando poesia, contos, romances e livros infantis.

Atualmente, Myriam mantém uma rotina de escrita que começa sempre pela manhã, em silêncio, enquanto os filhos estão na escola. A leitura, especialmente a poesia, funciona como um ponto de partida para a criação, abrindo caminhos estéticos e emocionais antes da escrita propriamente dita. Trabalha em múltiplos projetos ao mesmo tempo e alterna entre romance adulto, romance juvenil, poesia e prosa curta. As tardes são reservadas para revisão, quando a casa volta a ganhar movimento e ela desloca a energia criativa para um gesto mais técnico e refinado.

A literatura de Myriam se ancora no realismo, com forte presença das relações familiares, da experiência materna e dos conflitos íntimos que atravessam diferentes gerações. Embora transite entre temas universais, sua escrita se enraíza na Amazônia, especialmente no início do século XX — período que ela pesquisa com profundidade e que norteia seus romances. O passado amazônico, a formação urbana de Manaus e o ciclo da borracha compõem a base de suas narrativas, criando um diálogo entre história, ancestralidade e identidade.

Esse universo é visível em obras como Terra Úmida, romance publicado pela Penalux em 2021, que acompanha uma família de judeus marroquinos que chega à Amazônia durante o apogeu da borracha. No livro, o ambiente amazônico infiltra-se silenciosamente nos personagens, moldando suas memórias, tensões internas e modos de pertencimento. A paisagem, o clima e a ancestralidade funcionam como vetores narrativos tão potentes quanto os acontecimentos da trama.

“Terra Úmida”, romance de Myriam Scotti

Em 2025, Myriam lançou o livro de contos Sol Abrasador Prepara Solo Fértil, pela Editora Orlando. A obra reúne 18 narrativas que percorrem diferentes cidades do Amazonas e atravessam um arco temporal que vai do início do século XX até os dias atuais. Cada conto articula personagens marcados pela migração, pela desigualdade, pelo desejo e pela força do cotidiano amazônico. A paisagem — quente, úmida, sufocante e fértil — atua como elemento transformador das vivências dos protagonistas, criando histórias que abordam infância, mulheres atravessadas pela dureza da vida, ancestralidade, clima, perdas e reconstruções.

Livro “Sol Abrasador Prepara Solo Fértil”, de Myriam Scotti

A autora destaca que a recepção ao seu trabalho vem crescendo em diferentes regiões do país. Se no início da carreira enfrentava resistência por parte de leitores do Sul e Sudeste, nos últimos anos tem participado de clubes de leitura nessas regiões em número maior do que no próprio Norte, o que confirma a ampliação do interesse nacional pela literatura amazônica, por seus mitos, memórias e pela pluralidade de vozes que emergem desse território.

Em sua produção atual, Myriam segue imersa na pesquisa histórica e na escrita de um novo romance ambientado na Belle Époque amazônica. Sua literatura combina profundidade emocional, rigor estético e a capacidade de transformar clima, terra e memória em linguagem. Em cada gênero que explora, reafirma uma marca própria: a de narrar a Amazônia de dentro, com autenticidade, densidade e um olhar que escuta o que muitas vezes permaneceu silenciado.

Com uma obra crescente e cada vez mais reconhecida, Myriam Scotti firma-se como uma das autoras contemporâneas que melhor traduzem a complexidade, a beleza e as contradições da Amazônia — um território donde emergem histórias que desafiam as fronteiras entre passado e presente, intimidade e coletividade, solo fértil e memória ardente.