Policiais militares vão a júri popular por morte de estudante de medicina em São Paulo
Justiça decide que PMs responderão por homicídio doloso; defesa recorre e família pede prisão preventiva dos acusados
A Justiça determinou nesta segunda-feira, 23, que os policiais militares Guilherme Augusto Macedo e Bruno Carvalho do Prado serão julgados por júri popular pela morte do estudante de medicina Marco Aurélio Cardenas Acosta, ocorrida em novembro de 2024. Ainda não há data definida para o julgamento.
O advogado João Carlos Campanini, que representa os policiais, afirmou ao Estadão que "a defesa respeita a decisão e irá recorrer, uma vez que o próprio juízo narrou não ter certeza dos fatos". Segundo ele, "na hipótese de legítima defesa, a lei impõe que a dúvida deve gerar a absolvição dos acusados".
Marco Aurélio, de 22 anos, foi baleado pelo policial Guilherme Augusto Macedo na madrugada de 20 de novembro de 2024, em frente a um hotel na Vila Mariana, zona sul de São Paulo. O jovem foi atingido na barriga e não resistiu.
No momento do ocorrido, Macedo e o policial Bruno Carvalho do Prado faziam ronda de rotina pela região quando Marco Aurélio, sem camisa, passou caminhando e deu um tapa no retrovisor da viatura. Os policiais iniciaram perseguição ao estudante, que tentou entrar no hotel onde estava hospedado com uma mulher. Desarmado, Marco Aurélio foi encurralado e, à queima-roupa, atingido por disparo de Macedo, vindo a falecer.
Os advogados Pedro Medeiros Muniz e Nikolas Limas Pessoa Dias, representantes da família de Marco Aurélio, consideraram a decisão de levar o caso a júri popular "um passo decisivo rumo à justiça". No entanto, destacaram a "profunda indignação e inconformismo" diante da possibilidade de os réus recorrerem em liberdade. Eles afirmam que continuarão exigindo a prisão preventiva dos policiais e a expulsão deles da corporação.
"A liberdade desses agentes representa um risco manifesto à ordem pública e uma afronta direta à memória de Marco Aurélio e à dor de sua família. Não descansaremos até que aguardem o veredito final atrás das grades", diz nota divulgada pelos advogados.
Imagens captadas pelas câmeras corporais dos policiais mostram Marco Aurélio dizendo repetidamente "Tira a mão de mim! Tira a mão de mim!", conforme relatório final do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP).
De acordo com o delegado Gabriel Tadeu Brienza Vieira, responsável pelo inquérito, o uso da arma de fogo "não se mostrou legítimo", já que "a vítima estava visivelmente sem armas e não apresentava atitude que pudesse representar risco de morte ou lesão à guarnição policial ou a terceiros".
O Ministério Público denunciou Macedo e Prado por homicídio doloso (com intenção). Recentemente, a juíza Luciana Menezes Scorza, da 4ª Vara Criminal do Júri da capital, negou o pedido de prisão preventiva para Macedo, mas aceitou a denúncia do MP, permitindo o início da tramitação do caso.
Entre as medidas cautelares impostas ao policial Macedo estão: proibição de contato com familiares da vítima, apresentação mensal em juízo, atualização de endereço junto à Justiça, proibição de ausentar-se da comarca por mais de oito dias e de frequentar bares e festas.
Em dezembro de 2025, a Universidade Anhembi-Morumbi concedeu diploma póstumo a Marco Aurélio durante a colação de grau da turma de Medicina. Os pais do estudante, Julio Cesar Acosta Navarro e Silvia Cardenas Prado, ambos médicos, receberam o diploma em nome do filho, sob aplausos dos presentes.