SAÚDE

Autodiagnóstico na adolescência cresce com influência de redes sociais e inteligência artificial

Psicóloga analisa aumento de jovens que chegam aos consultórios com rótulos psiquiátricos definidos por pesquisas digitais e alerta para os riscos da simplificação do sofrimento psíquico

Por Igor Fernandes Publicado em 23/02/2026 às 11:12
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Uma movimentação recente tem sido observada em consultórios de saúde mental voltados ao público jovem. Adolescentes passam a buscar atendimento afirmando apresentar quadros como transtorno bipolar, TDAH ou transtorno de personalidade borderline, muitas vezes com base em conteúdos encontrados em redes sociais ou em respostas produzidas por sistemas de inteligência artificial.

O fenômeno não surge de forma isolada. A ampliação do acesso à informação modificou a forma como sintomas são percebidos e interpretados. Plataformas digitais oferecem descrições rápidas, listas de características e vídeos curtos que associam comportamentos cotidianos a categorias diagnósticas.

Para a psicóloga Maria Klien, o movimento exige análise cuidadosa. “O que observamos no consultório é um deslocamento da escuta. O jovem chega com uma conclusão pronta, construída a partir de fragmentos de informação. Ele não apresenta apenas sofrimento, mas uma identidade organizada em torno de um rótulo. Isso altera o ponto de partida do trabalho clínico, porque o foco deixa de ser a experiência vivida e passa a ser a confirmação ou negação de um diagnóstico previamente assumido. A adolescência é atravessada por instabilidade, conflitos de pertencimento e busca por reconhecimento. Quando essas vivências são traduzidas de forma imediata em categorias psiquiátricas, há risco de empobrecimento da compreensão sobre o que está sendo sentido”, afirmou.

Historicamente, o autodiagnóstico não constitui novidade. Em décadas anteriores, jovens recorriam a livros, revistas ou testes publicados em periódicos. A diferença atual está na velocidade de circulação das informações e na lógica algorítmica que reforça conteúdos semelhantes após cada pesquisa realizada.

Maria Klien observa que esse processo pode produzir efeitos subjetivos relevantes. “Quando um adolescente passa a se definir por um transtorno antes mesmo de avaliação técnica, se cria uma narrativa que pode limitar possibilidades de elaboração. O diagnóstico em saúde mental não é um rótulo identitário. É uma ferramenta clínica que orienta condutas e estratégias terapêuticas. Fora desse contexto, ele pode funcionar como cristalização de conflitos que ainda estão em transformação. É necessário distinguir sofrimento psíquico, que faz parte do desenvolvimento, de quadros estruturados que demandam intervenção específica”, destacou.

O ambiente digital também contribui para a formação de comunidades organizadas em torno de determinadas condições. Vídeos curtos relatam experiências pessoais e apresentam listas de sinais que, isoladamente, podem ser comuns a diferentes fases da vida.

Segundo a psicóloga, o desafio não está em restringir o acesso à informação, mas em qualificar o diálogo. “A internet oferece dados, mas não realiza escuta. A inteligência artificial produz respostas baseadas em padrões, porém não substitui avaliação clínica. O encontro terapêutico considera história familiar, contexto social, trajetória escolar, vínculos e funcionamento emocional. Sem esse conjunto, qualquer conclusão se torna parcial. O papel do profissional é construir sentido junto ao paciente, não validar automaticamente hipóteses formuladas fora da clínica”, declarou.

Outro ponto ressaltado por Maria Klien envolve a dinâmica familiar. Muitos responsáveis chegam às consultas já convencidos de que o filho apresenta determinado transtorno, influenciados por relatos virtuais. Isso pode intensificar tensões e dificultar a compreensão do que está em curso.

A adolescência é etapa de transição. Oscilações de humor, impulsividade, questionamentos e sensação de inadequação podem fazer parte desse percurso. Quando cada manifestação é enquadrada como sintoma de um quadro psiquiátrico, perde-se a dimensão do processo de amadurecimento. O cuidado em saúde mental exige tempo, investigação e responsabilidade. Diagnóstico não é resposta imediata a qualquer angústia. É resultado de análise criteriosa, construída com método e acompanhamento”, concluiu.

Sobre Maria Klien:

Maria Klien exerce a psicologia, se orientando pela investigação dos distúrbios ligados ao medo e à ansiedade. Sua atuação clínica integra métodos tradicionais e práticas complementares, visando atender às necessidades emocionais dos indivíduos em seus universos particulares. Como empreendedora, empenha-se em ampliar a oferta de recursos terapêuticos que favorecem a saúde psíquica, promovendo instrumentos destinados ao equilíbrio mental e ao enfrentamento de questões que afetam o bem-estar psicológico de cada paciente.