Endividamento permanece elevado no primeiro trimestre e exige ajuste imediato
Com 77% das famílias brasileiras endividadas, pressão do início do ano se prolonga e acende alerta sobre planejamento e uso do crédito
Mesmo após o pico de despesas do início do ano, cerca de 77% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O impacto de impostos, gastos escolares e inflação acumulada continua pressionando o orçamento no primeiro trimestre e prolongando o desequilíbrio financeiro.
Leonardo Baldez Augusto, economista e educador financeiro, avalia que o quadro é agravado pela concentração de compromissos financeiros no início do ano e pela ausência de planejamento prévio. “Janeiro reúne despesas previsíveis, mas pouco organizadas. Quando o orçamento chega pressionado e sem estratégia, qualquer gasto extra vira desequilíbrio”, afirma.
Pressão do calendário e efeito no orçamento
Segundo dados da CNC, impostos como IPTU e IPVA, somados às despesas educacionais, costumam consumir uma parcela relevante da renda logo nos primeiros meses do ano. Para Baldez, o impacto não está apenas no volume de gastos, mas na forma como eles são distribuídos ao longo do tempo. “O problema não é pagar contas, é pagar tudo ao mesmo tempo, sem preparo. Isso compromete o fluxo de caixa da família e amplia o uso do crédito caro”, analisa.
O economista observa que, mesmo com sinais de desaceleração inflacionária, o orçamento doméstico segue pressionado. “A renda não acompanhou na mesma velocidade o aumento dos custos fixos. Isso explica por que o endividamento permanece elevado mesmo fora de períodos de crise aguda”, pontua.
Método simples para reorganizar as finanças
Diante desse cenário, Baldez defende a adoção de um método básico de organização do orçamento, dividido em três grupos: despesas fixas mensais, como moradia e contas essenciais; despesas variáveis, como alimentação fora de casa e lazer; e gastos anuais ou sazonais, como impostos e escola. “Quando a família separa essas três camadas, passa a enxergar com clareza onde está o desequilíbrio e onde é possível ajustar”, explica.
A partir desse diagnóstico, o especialista sugere um plano de 90 dias para recuperar previsibilidade financeira. No primeiro mês, o foco deve ser mapear gastos e renegociar dívidas mais caras. No segundo, reorganizar hábitos de consumo e criar uma reserva mínima. No terceiro, estabelecer metas de médio prazo. “É um processo gradual. Tentar resolver tudo de uma vez costuma gerar frustração e abandono do planejamento”, destaca.
Consórcio entra como instrumento de disciplina
Após a reorganização inicial das contas, o consórcio aparece como alternativa para famílias que desejam planejar aquisições sem recorrer a financiamentos com juros elevados. Para o economista, a principal vantagem está no efeito disciplinador da modalidade. “O consórcio funciona como uma poupança com objetivo definido. A parcela cabe no orçamento e ajuda a manter o compromisso mensal sem pressionar as finanças”, avalia.
Ele ressalta que o consórcio não deve ser usado como solução para o endividamento, mas como etapa seguinte do planejamento. “Primeiro é preciso colocar a casa em ordem. Depois, faz sentido assumir um compromisso que ajude a construir patrimônio sem desorganizar o orçamento”, resume.
Ao avaliar o cenário deste ano, Baldez destaca que famílias que utilizam o primeiro trimestre para reorganizar as finanças tendem a tomar decisões mais racionais ao longo do período. “Quem transforma o início do ano em fase de ajuste, e não apenas de sobrevivência, ganha fôlego para sair do ciclo de aperto financeiro e retomar projetos com mais segurança”, conclui.