CRÔNICA

O dorminhoco que não conseguia cochilar

Por Rodrigo Carvalho Publicado em 23/02/2026 às 09:22
Rodrigo Carvalho Assessoria

— Muito bonito, senhor Olivério preambulando pela loja após o almoço!
— Desculpa chefe, mas estou sem sono. Na verdade, não consigo cochilar após o almoço.
— Como assim? Você foi contratado justamente para tirar um gostoso cochilo em nossos confortáveis colchões após o almoço.
— Eu sei. Mas não me acostumo a dormir em pleno dia.
— Olha Olivério, nossa loja de colchões oferece aos seus clientes o que há de mais confortável na hora do sono, por isso, é imprescindível mostrarmos a eles essa experiência única, e o melhor modo de divulgar isso, é os funcionários dormirem nos colchões.
— Eu sei. Somos pagos para dormir.
— Isso mesmo. Olha só o Fonseca. Dorme praticamente o dia todo. Dorme gostoso, dorme feliz. O cliente entra na loja, o vê dormindo sem preocupações e vai querer comprar o colchão na hora.
— Fonseca é o melhor dorminhoco da loja.
— Claro, passa o dia dormindo e “vendendo colchão”.
— Confesso chefe. Está difícil para mim ser um dorminhoco.
— Lembre-se Olivério, que esse cochilo é muito importante. Uma grande parcela da população brasileira costuma cochilar entre 20 a 40 minutos após o almoço para recuperar as energias.
— O problema é que eu não tenho sono. Acho que vou pedir as contas.
— Não fale isso, Olivério. Você é um funcionário dedicado. Seu problema é essa dificuldade em dormir durante o horário de expediente.
— Como continuar trabalhando aqui, sem precisar dormir no trabalho?
— Já sei. O Mathias, que é o segurança da loja, e fica durante o dia na guarita, pediu transferência para nossa filial do interior. Você ficará no lugar dele.
— Ótimo, chefe! Servicinho melhor do que ficar dormindo durante o trabalho.
Olivério entusiasmado começou a trabalhar na guarita. Sempre alerta, sempre atento a todos os que passavam por ali. Até que um dia, seu chefe aparece de surpresa após o almoço, e o pega no flagra:
– Muito bonito, senhor Olivério cochilando no trabalho em pleno horário de expediente!


RODRIGO ALVES DE CARVALHO nasceu em Jacutinga (MG). Jornalista, escritor e poeta, possui diversos prêmios em vários estados e participação em importantes coletâneas de poesia, contos e crônicas promovidas por editoras e órgãos literários. Atualmente colabora com suas crônicas em conceituados jornais brasileiros e Blogs dedicados à literatura.

Em 2018, lançou seu primeiro livro intitulado “Contos Colhidos”, pela editora Clube de Autores. Trata-se de uma coletânea com contos e crônicas ficcionais, repleto de realismo fantástico e humor. Também pela editora Clube de Autores, em 2024, publicou o segundo livro: “Jacutinga em versos e lembranças” - coletânea de poemas que remetem à infância e juventude em Jacutinga, sua cidade natal, localizada no sul de Minas Gerais. Em 2025, publicou o terceiro livro “A saga de Picolândia” - série de relatos sociopolíticos acontecidos em Picolândia – uma pequena cidade do interior, cuja sua principal fonte de renda é a produção de sorvetes. Com um tom humorístico e irônico, com uma pitada de realismo fantástico, a obra reúne diversas crônicas engraçadas narradas por um morador desta cidade.
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