OPERAÇÃO ÍCARO

Justiça mantém prisão de fiscal acusado de corrupção ligado ao caso Ultrafarma

Auditor fiscal segue foragido nos EUA após ser apontado como operador de esquema bilionário de propinas na Receita paulista.

Publicado em 21/02/2026 às 09:28
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A Justiça de São Paulo decidiu manter a ordem de prisão preventiva do auditor fiscal Alberto Toshio Murakami, conhecido como 'Americano', foragido desde agosto do ano passado, quando foi deflagrada a Operação Ícaro. A operação desmantelou um esquema bilionário de corrupção no Palácio Clóvis Ribeiro, sede da Receita estadual.

A defesa de Murakami argumentou que ele já residia no exterior antes da decretação da prisão. Segundo os autos, ele estaria vivendo em uma mansão avaliada em R$ 7 milhões, com mil metros quadrados, localizada em Clarksville, Tennessee, nos Estados Unidos.

O juiz da 1.ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores destacou que a residência no exterior fragiliza a eficácia da jurisdição penal brasileira. “Ainda que se alegue tratar-se de residência previamente fixada, o fato é que sua permanência em país estrangeiro subtrai-o do alcance ordinário dos mecanismos executivos estatais, condicionando eventual cumprimento de decisão condenatória ao acionamento de instrumentos de cooperação jurídica internacional, cujo trâmite é reconhecidamente complexo, demorado e dependente de deliberações soberanas do Estado requerido”, registrou o magistrado.

Para o juiz, a mera indicação de endereço fora do país não garante a submissão ao processo, tampouco afasta o risco de liberdade do acusado. “Não há demonstração de vínculos concretos e atuais com o distrito da culpa que assegurem sua pronta apresentação aos atos processuais. Com isso, em que pese o seu caráter excepcional, impõe-se, por ora, a manutenção da segregação cautelar”, justificou.

Em janeiro, a Justiça determinou a inclusão do nome de Murakami na Difusão Vermelha da Interpol, tornando-o um dos mais procurados do mundo.

A Operação Ícaro, conduzida pelo Gedec — grupo do Ministério Público especializado em delitos econômicos —, desarticulou um esquema de ressarcimento fraudulento de créditos tributários. O grupo teria recebido cerca de R$ 1 bilhão em propinas para agilizar liberações de valores a grandes empresas, como Ultrafarma e Fast Shop. Segundo a Promotoria, o auditor fiscal Artur Gomes da Silva Neto, já preso e exonerado, liderava a rede criminosa.

'Americano' é apontado como operador do esquema e ligado a Artur. A Promotoria sustenta que ele participou ativamente da trama, enquanto a defesa afirma que sua conduta não caracteriza protagonismo e pede a aplicação de medidas cautelares alternativas à prisão, alegando que ele já residia fora do país à época da decretação da prisão. O Ministério Público se manifestou contra o pedido.

O juiz negou a revogação da prisão, afirmando que há fundamentos formais e materiais para manter a custódia preventiva, mesmo considerando o princípio da presunção de inocência. Murakami responde por 46 crimes de corrupção, referentes ao recebimento de R$ 6,6 milhões em propinas, pagos em 46 parcelas.

De acordo com a denúncia, entre janeiro e julho de 2025, Murakami, junto a outros acusados, teria solicitado e recebido vantagens indevidas para facilitar o ressarcimento de créditos de ICMS-ST à Rede 28 de postos de combustíveis, de propriedade de Paulo César Gaieski. O magistrado destacou que Murakami teria apresentado Gaieski à empresa Smart Tax, usada para lavar dinheiro do esquema, e recebido certificados digitais e senhas dos clientes.

A defesa alegou que outro fiscal, Marcelo de Almeida Gouveia, teve a prisão revogada, mas o juiz ressaltou que há diferenças relevantes entre os casos, especialmente quanto ao papel de Murakami na aproximação entre os envolvidos e sua atual condição de foragido no exterior, o que, segundo a decisão, mantém o risco à aplicação da lei penal.