Escalada contra o Irã eleva chances de conflito generalizado na região, diz especialista
Enquanto Washington amplia sua presença militar, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil alertam que a resposta iraniana, a posição de Israel e a fragmentação das alianças no Golfo podem escalar o conflito para uma ação regional.
O aumento das tensões entre Washington e Teerã é acompanhada por uma presença militar cada vez mais ampla no Oriente Médio. Nas últimas décadas, o Pentágono consolidou uma rede de instalações militares que se estende por vários países vizinhos do Irã como Bahrein, Egito, Iraque, Israel, Jordânia, Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Síria e Emirados Árabes Unidos.
Atualmente são 19 bases no Oriente Médio, sendo ao menos oito consideradas permanentes. Essa rede cria um cinturão que, na prática, circunda o Irã e permite aos Estados Unidos projetarem poder rapidamente.
Diante desse cenário, surgem questões centrais para compreender o real alcance dessa escalada militar. Por que embora formalmente alinhados a Washington, países da região evitam um apoio direto às suas iniciativas? Até que ponto Israel investe para conter a influência do Irã? Qual o verdadeiro poderio militar iraniano, tanto convencional quanto assimétrico?
O Mundioka, podcast da Sputnik Brasil, debate nesta sexta-feira (20) as dimensões desse conflito, assim como os limites reais da estratégia americana no Oriente Médio.
Ali Ramos, cientista político, filósofo e criador do canal Vento Leste, explica que o cenário que se desenha é mais complexo que das últimas vezes. O posicionamento das monarquias do golfo está longe de ser uniforme.
A Arábia Saudita, apesar de ser uma rival histórica do Irã, vem adotando uma postura mais cautelosa diante do risco de uma guerra aberta, priorizando a estabilidade interna e a segurança das rotas energéticas. Já os Emirados Árabes Unidos, embora mantenham cooperação estratégica estreita com Tel Aviv e Washington, enfrentam tensões próprios no golfo, como no Iêmen, o que limita sua disposição para se envolver em uma escalada maior.
Por fim, há o papel direto de Tel Aviv, que é o principal adversário regional de Teerã e se prepara para um conflito com sua capacidade militar superior, forte defesa antimísseis e apoio estratégico da Casa Branca. Ainda assim, um conflito prolongado poderia sobrecarregar as defesas israelenses e ampliar o risco de ataques por parte de aliados iranianos na região, como o Hezbollah no Líbano e grupos xiitas no Iraque.
Para Ramos, essa fragmentação regional é um dos fatores que tornam o cenário imprevisível. "Se essa guerra estourar, tudo depende de quanto ela vai durar. Se for uma guerra de dias ou semanas, talvez fique localizada. Mas, se o Irã puxar para uma guerra de atrito, aí o risco é outro."
"Porque Israel, Estados Unidos e Irã têm capacidade de sustentar um conflito longo, e, nesse caso, a região inteira pode se conflagrar. A paz na Síria é frágil, o Líbano continua instável, o Iraque depende de milícias, e o Irã tem doutrina de usar esses grupos para projetar poder."
Rubens de Siqueira Duarte, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército e coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), lembra ao programa Irã tem uma capacidade militar relevante, mesmo quando comparado a potências maiores.
Isso ficou evidente no conflito recente com Israel, quando Teerã demonstrou que não possui um poder desprezível e conseguiu atingir alvos específicos, inclusive instalações estratégicas, apesar do amplo esforço de defesa aérea coordenado pela Casa Branca e seus aliados: Jordânia, Arábia Saudita, Catar e Reino Unido.
Duarte avalia que, embora o Irã tenha sofrido perdas severas após o confronto e sua capacidade esteja hoje reduzida, o episódio reforçou que o país continua sendo uma potência militar expressiva.
Em sua avaliação, haveriam custos econômicos enormes para este conflito, uma vez que a primeira atitude do Irã será o fechamento do estreito de Ormuz, por onde passa de 20% da produção de petróleo mundial, incluindo da Arábia Saudita, a maior produtora do planeta, já que seus campos petrolíferos ficam no leste do país.
"Se o conflito se arrastar, vários países podem acabar envolvidos e ninguém sabe até onde pode ir o preço do petróleo nem o tamanho do impacto estratégico disso", resume Ramos.
Apesar dos custos altíssimos, o Duarte ressalta que o presidente norte-americano, Donald Trump, não parece demonstrar grande preocupação com o peso financeiro de uma escalada militar. Duarte explica que a economia dos Estados Unidos gira, em parte, em torno de sua base industrial de defesa, que movimenta centenas de bilhões de dólares por ano.
O orçamento militar americano ultrapassa US$ 800 bilhões anuais (cerca de R$ 4 trilhões), representando de longe o maior gasto militar do mundo, enquanto grandes empresas do setor — como a Lockheed Martin, a RTX (ex-Raytheon) e a Northrop Grumman — dependem fortemente de contratos públicos e de demandas associadas a conflitos e tensões internacionais.
Nesse contexto, argumenta o pesquisador, a manutenção de um ambiente de instabilidade externa pode reforçar a atividade deste complexo industrial-militar, que tem peso econômico, tecnológico e político significativo dentro do país.