SAÚDE INDÍGENA

Surto de coqueluche mata crianças Yanomami em Roraima: 'Estamos muito preocupados'

Três óbitos de bebês Yanomami foram confirmados em 2024; lideranças alertam para subnotificação e risco em comunidades isoladas

Publicado em 20/02/2026 às 18:54
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

A filha de Edivania Yanomami tinha apenas quatro meses quando morreu, em 10 de fevereiro, vítima de coqueluche. A bebê, pertencente à comunidade Arasiki, na região de Surucucu, chegou a ser transferida com a mãe para o Hospital da Criança, em Boa Vista, mas não resistiu às complicações da infecção respiratória. Ela é uma das três mortes registradas entre 1º de janeiro e 19 de fevereiro deste ano, conforme dados oficiais.

Documentos obtidos pelo Estadão mostram que a maioria das vítimas eram bebês, incluindo uma criança de apenas um mês e 17 dias de vida.

Em nota, o Ministério da Saúde informou que reforçou as equipes de atendimento na região de Surucucu, na Terra Indígena Yanomami, com médicos, técnicos de enfermagem, enfermeiros, socorristas e especialistas do Programa EpiSUS, experientes em contenção de surtos. "Está sendo realizada busca ativa e coleta de material para análise clínica. Todos os pacientes com suspeita de coqueluche e seus contactantes estão em tratamento e acompanhamento de saúde. Até o momento, foram confirmados oito casos de coqueluche, com três óbitos", diz a nota.

O Ministério dos Povos Indígenas orientou que informações sobre o caso fossem buscadas junto à Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai).

Lideranças Yanomami afirmam que o número real de mortes pode ser maior do que o divulgado oficialmente, estimando pelo menos cinco óbitos apenas em 2024, tanto na capital quanto nas aldeias. O Boletim Epidemiológico da Secretaria de Saúde de Roraima aponta 31 casos notificados e 12 confirmados.

"Essas crianças ainda não conheceram o mundo, nasceram e suas mães já precisam chorar. O futuro delas foi interrompido. Estamos muito preocupados", lamenta Waihiri Hekurari, presidente da Urihi Associação Yanomami.

Infecção letal para comunidades isoladas

A coqueluche, conhecida como "tosse comprida", é uma infecção bacteriana causada pela Bordetella pertussis que afeta o aparelho respiratório, comprometendo traqueia e brônquios. Segundo a pediatra Alana Zorzan, cofundadora da plataforma Mini Löwe, a doença se manifesta por crises de tosse seca e intensa, que podem dificultar a respiração.

Após as crises, é comum o paciente emitir um som agudo ao puxar o ar, semelhante a um "guincho". Em casos graves, pode ocorrer cianose, quando a oxigenação do sangue é prejudicada.

Bebês menores de seis meses estão entre os grupos de maior risco, pois ainda não completaram o esquema vacinal com a DTP (tríplice bacteriana infantil), podendo apresentar apneias e pausas na respiração. "É um grupo de altíssimo risco", alerta a especialista.

Alana Zorzan ressalta que o Brasil vive um cenário de alerta devido à queda na cobertura vacinal, e que o surto na Terra Indígena Yanomami reflete não apenas a baixa imunização, mas também a vulnerabilidade nutricional e a circulação de não indígenas no território. Ela destaca que o garimpo ilegal contribui para a entrada de doenças respiratórias e lembra que comunidades isoladas têm pouca memória imunológica, tornando a coqueluche potencialmente letal para esses povos.