Taxas de juros recuam com veto da Suprema Corte dos EUA a tarifas
Decisão judicial nos EUA anima mercados e impulsiona queda nos juros futuros no Brasil, com impacto positivo também no câmbio.
O pregão desta sexta-feira caminhava para ser morno nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs), diante de uma agenda doméstica esvaziada e com investidores atentos apenas ao PIB e ao índice de preços de gastos com consumo (PCE) dos Estados Unidos, além das tensões geopolíticas entre o país e o Irã. No entanto, a decisão da Suprema Corte dos EUA de considerar ilegal o uso de tarifas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (IEEPA, na sigla em inglês) impulsionou um rali nos ativos domésticos, refletindo-se também na curva de juros futuros.
Segundo analistas, apesar de persistirem dúvidas sobre a manutenção do veto às tarifas, a leitura inicial foi de que a medida pode reduzir a inflação nos EUA, o que abriria espaço para o Federal Reserve (Fed) cortar juros, favorecendo também o ciclo de cortes da Selic no Brasil.
Perto do fim do pregão, o presidente dos EUA, Donald Trump, desafiou a decisão judicial e anunciou uma tarifa global de 10%, com início previsto para três dias após o anúncio. A notícia intensificou a queda dos juros futuros, que atingiram mínimas intradiárias, pois o mercado esperava uma alíquota maior. O movimento foi acompanhado pela valorização do real, que chegou a operar abaixo de R$ 5,20.
Ao final do dia, a taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 13,297% no ajuste anterior para a mínima de 13,24%. O DI para janeiro de 2029 recuou de 12,674% para 12,595%, enquanto o DI para janeiro de 2031 registrou queda de 13,122% para 13,045%.
Na semana, marcada por baixa liquidez devido a feriados no Brasil e nos EUA, a curva a termo também recuou: o DI de janeiro de 2027 caiu 7 pontos-base em relação à última sexta-feira. Os contratos para janeiro de 2029 e janeiro de 2031 recuaram 6 e 3,5 pontos-base, respectivamente.
Para León Santiago Lucas, head de renda fixa da Ville Capital, o principal fator para a queda expressiva nas taxas foi o otimismo gerado pela decisão judicial que vetou as tarifas de Trump. No decorrer da tarde, o mercado passou a avaliar com mais atenção os possíveis impactos fiscais negativos para os EUA, considerando que o Tesouro americano arrecadou mais de US$ 133 bilhões em impostos de importação.
Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, avalia que, neste primeiro momento, a reação positiva dos juros futuros e demais ativos de risco brasileiros foi impulsionada pelos efeitos esperados da retirada das tarifas sobre a maior economia do mundo, sem considerar ainda possíveis impactos positivos diretos para o Brasil.
"Há uma percepção de uma economia norte-americana um pouco mais fraca, o que pode se traduzir em juros mais baixos globalmente e em um dólar mais fraco", ponderou, ressaltando que ainda há incerteza sobre a efetiva retirada das tarifas e sobre a resposta do governo Trump.
Durante a tarde, Trump afirmou que a tarifa de 10% deve vigorar por cinco meses e que parte dos acordos comerciais negociados sob a IEEPA pode ser revista. Ele também alertou que o veredicto da Suprema Corte não limita sua capacidade de restringir o comércio internacional e que poderá adotar medidas ainda mais rígidas.
Ainda assim, as declarações do presidente americano acentuaram o ritmo de queda do dólar e dos DIs, levando o Ibovespa a renovar recordes, impulsionado pelas bolsas de Nova York. "Em princípio, o plano B de Trump poderia prever uma tarifa maior, de até 15%, mas ele anunciou 10%, o que foi visto como positivo", avaliou um gestor de renda fixa de uma grande Asset à Broadcast, do Grupo Estado. Ele também destacou o cenário favorável para ativos de países emergentes, com valorização das bolsas e queda do dólar global.