MERCADO FINANCEIRO

Taxas de juros sobem e curva ganha inclinação com aumento das tensões entre EUA e Europa

Aversão ao risco global e conflitos geopolíticos elevam juros futuros e pressionam mercado de renda fixa no Brasil.

Publicado em 20/01/2026 às 18:29
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

Influenciados pela maior aversão ao risco que predominou nos mercados globais nesta terça-feira (20), os juros futuros negociados na B3 registraram elevação desde a abertura dos negócios, com aumento da inclinação da curva a termo.

O movimento de alta perdeu força no início da tarde, quando o dólar reverteu o sinal positivo e passou a cair frente ao real. No entanto, o alívio no câmbio foi passageiro, e as taxas voltaram a subir: cerca de 4 pontos-base nos contratos de prazo mais curto e de 8 a 10 pontos-base nos intermediários e longos.

Sem indicadores domésticos relevantes na agenda, o pano de fundo foi o aumento das tensões geopolíticas e comerciais entre Europa e Estados Unidos em torno da Groenlândia. Os DIs seguiram, ainda que em menor intensidade, o comportamento da curva dos Treasuries norte-americanos, pressionados pela busca de ativos considerados seguros. Do Japão, também veio influência: retornos de títulos soberanos longos atingiram níveis recordes em meio a preocupações fiscais.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 subiu de 13,757% para 13,81%. O DI para janeiro de 2029 avançou de 13,168% para 13,28%. Já a taxa de janeiro de 2031 passou de 13,483% para 13,61%.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reforçou nesta terça-feira ameaças tarifárias contra a União Europeia caso o bloco resista à tentativa americana de anexar a Groenlândia, território pertencente à Dinamarca. Trump afirmou que não pretende recuar desse objetivo.

"O Ártico deixou de ser apenas um espaço de cooperação e passou a refletir rivalidades estratégicas entre Estados Unidos, Rússia e China, com a Europa em posição secundária", analisa Cristiano Oliveira, diretor de pesquisa econômica do banco Pine. Ele destaca que o interesse militar americano pela ilha remonta ao pós-guerra, mas que "qualquer tentativa de 'aquisição' externa é juridicamente inviável sem o consentimento da população local". Além disso, embora a localização seja estratégica para vigilância, o valor militar direto da Groenlândia atualmente tende a ser superestimado.

"As tensões geopolíticas aumentaram. Vimos as taxas de juros dos Treasuries subindo bastante, e a pressão nos DIs acompanhou o mercado externo", avalia Flávio Serrano, economista-chefe do banco BMG. "O mercado de renda fixa global é mais profundo; toda vez que há uma mudança de percepção, isso geralmente se reflete em movimentos mais intensos", explica.

Por volta das 18h, o rendimento da T-Note de 2 anos subia para 3,597%, o da T-Note de 10 anos chegava a 4,292% e o T-Bond de 30 anos atingia 4,917%. Em uma semana sem divulgação de indicadores econômicos no Brasil e com expectativa de manutenção da Selic na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, segundo Serrano, o cenário externo foi determinante para o desempenho negativo do mercado de renda fixa local.