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Europa: 'um ato de rendição como um acordo amistoso' sobre a Groenlândia, avaliam especialistas.

Publicado em 18/01/2026 às 16:15
© Sputnik / Aleksei Vitvitsky / Acessar o banco de imagens

Ao tentar demonstrar apoio à soberania dinamarquesa sobre a Groenlândia, a União Europeia se vê forçada a confrontar os Estados Unidos, seu principal aliado, mas sem dispor hoje de instrumentos políticos ou estratégicos eficazes para fazê-lo, segundo especialistas ouvidos pela Sputnik.

O dilema ganha contornos inusitados, pois obriga os países europeus a escolher entre apoiar um membro da UE e manter a lealdade à arquitetura de segurança continental liderada por Washington, pilar fundamental da aliança atlântica.

Em uma situação que, caso se agrave, poderia levar a Dinamarca a invocar o Artigo 5º de defesa mútua da OTAN e Bruxelas o análogo Artigo 42.7 do Tratado da União Europeia, países como a Alemanha propõem uma solução negociada no âmbito da aliança. O Reino Unido e a Noruega chegam a propor a criação, dentro da OTAN, da Operação Sentinela Ártica, para atender ao que o presidente dos EUA, Donald Trump, define como um problema de segurança em torno da Groenlândia. Outras nações, como a França, defendem uma atuação estritamente no marco europeu.

Sob o nome de Operação Resistência Ártica, a Dinamarca já começou a reforçar sua presença militar na Groenlândia. Alemanha, Suécia, França, Noruega e Finlândia já enviaram como força avançada seus primeiros soldados e oficiais para coordenar um posterior desdobramento maior, embora atualmente os números mal cheguem a cerca de 37 efetivos. A Espanha também anunciou disposição para enviar tropas, mas antes aguarda "formar uma ideia mais clara" da situação, como expressou seu ministro das Relações Exteriores, José Manuel Albares. Enquanto aguarda resolver suas dúvidas, Madri, no entanto, pede firmeza a Bruxelas.

Durante sua comparecência no Parlamento espanhol para explicar a posição de sua pasta diante da crise aberta na Venezuela, o ministro Albares anunciou a necessidade de impulsionar a criação de uma “Aliança Mundial para o Multilateralismo”, que zele pela “cooperação internacional e pela resolução pacífica dos conflitos, em defesa da paz e da segurança internacionais”.

Cabe questionar o que se encaixa nesse idealismo multilateral, já que o bloco europeu não respondeu da mesma forma quando outros países sofreram ataques diretos à sua integridade, como Palestina, Venezuela, Líbano, Síria ou Irã. Além disso, embora a Espanha seja reticente em aumentar seus gastos militares para 5% do PIB, nas últimas cúpulas da OTAN Madri pediu vigilância sobre o chamado flanco sul da aliança, cuja instabilidade, com epicentro no Sahel, pode afetar a segurança de suas fronteiras.

"É uma declaração totalmente oportunista", afirma à Sputnik o diplomata e ensaísta Augusto Zamora, que recorda a fidelidade à OTAN e ao vínculo transatlântico expressa pelo chefe do governo espanhol, Pedro Sánchez, durante uma entrevista em 12 de janeiro, em Madri, com seu homólogo grego, Kyriakos Mitsotakis. "Sánchez já disse que a Espanha é pró-atlântica. Todo mundo [na UE] se diz atlantista e ninguém quer romper com os Estados Unidos", explica.

"Não se está pensando em nenhuma nova organização nem ninguém está pensando seriamente em mudar nada. São reações de caráter propagandístico”, conclui, esvaziando assim qualquer perspectiva de fortalecer o multilateralismo ou mesmo de refundar a ONU, o que limita seu potencial de atração global.

Na avaliação desse especialista, a UE carece atualmente de "densidade" para empreender iniciativas de grande envergadura. "A OTAN engoliu a União Europeia, e os Estados Unidos são quem governa a OTAN", afirma. Como resultado, é previsível que a atual conjuntura em torno da Groenlândia “não dure muito”. "No final, haverá algum tipo de arranjo que dará a Trump uma saída honrosa, com ares de vitória. E nada mais."

Trump prometeu impor tarifas de até 25% aos países que estão enviando apoio militar à Groenlândia, incluindo a Dinamarca. "Deverão ser pagas até que se chegue a um acordo para a compra total e completa da Groenlândia", declarou o presidente norte-americano.

"As tarifas minariam a relação transatlântica e poderiam provocar uma perigosa espiral descendente", respondeu a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, em comunicado assinado conjuntamente com o presidente do Conselho Europeu, António Costa, a partir do Paraguai, onde acabavam de firmar, em sua capital, o acordo comercial UE–Mercosul.

Apesar da tensão, poucos acreditam que a situação evolua para um confronto armado. "O perigo de enfrentamento militar é basicamente nulo, sobretudo pelo que disse Stephen Miller: ninguém vai lutar com os Estados Unidos pela Groenlândia", explica à Sputnik a socióloga Nahia Sanzo, analista do grupo de pesquisa multidisciplinar GeopolitikaZ, da Universidade do País Basco (UPV/EHU).

"A OTAN não vai lutar contra os Estados Unidos, que além disso têm ferramentas para paralisar as armas que os aliados europeus teriam de usar. Antes entregariam a Groenlândia ou a Dinamarca, se fosse preciso. Eles têm dificuldades para criar um contingente hipotético de 15 mil efetivos. E com que preparação para o clima da Groenlândia?", questiona a analista.

A vigência da UE como projeto histórico está em xeque. "Está ferida de morte há muitos anos", considera Zamora, que situa seu declínio progressivo na conivência com o bombardeio da Iugoslávia, na expansão da OTAN e no "abandono" de sua política externa.

"Ali morreu o projeto europeu. O que veio depois foi a otanização da Europa, até chegar à guerra com a Rússia e a um alinhamento total com os Estados Unidos", afirma. E, como produto desse alinhamento, "no final, a Europa se ajoelhará. Porque, ainda que os Estados Unidos acabem respeitando a Groenlândia, os europeus a entregarão de alguma forma. Um ato de rendição será disfarçado como um acordo amistoso", conclui.


Por Sputinik Brasil