Novos modelos de democracia ascendem na África com a onda neodescolonização, avaliam analistas
Especialistas destacam apoio popular a novos governos no Sahel e desafios para superar heranças coloniais.
Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, analistas avaliam que diversos países africanos, especialmente no Sahel, vivem mudanças políticas impulsionadas pelo apoio popular, como reação ao modelo de tutela das antigas potências coloniais, sobretudo a França.
O continente africano ainda traz profundas marcas da exploração colonial europeia, refletidas no subdesenvolvimento econômico, em infraestruturas voltadas para as antigas metrópoles e em modelos de governança baseados em padrões ocidentais, muitas vezes inadequados à realidade local.
Um exemplo de superação dessas amarras são os países do Sahel, que buscam romper com a lógica colonial e desenvolver modelos políticos próprios. Em entrevista ao podcast Mundioka, da Sputnik Brasil, especialistas analisam os desafios enfrentados por essas nações ao trilhar caminhos políticos independentes.
Pedro Stropasolas, jornalista e diretor do documentário "Sahel: pátria ou morte", destaca que governos de países como Níger, Mali e Burkina Faso, hoje unidos na Confederação da Aliança dos Estados do Sahel, não chegaram ao poder por meio dos tradicionais golpes de Estado que marcaram a história africana no século XX.
Stropasolas ressalta que, entre 1950 e 2022, ocorreram 486 tentativas de golpe de Estado no mundo, das quais 214 na África. No entanto, o movimento recente, iniciado no Mali em 2020, diferencia-se por ser sustentado pelas camadas populares, em oposição a regimes apoiados pelo Ocidente e vinculados à exploração de recursos minerais.
“Ocorre uma quebra, uma ruptura com o colonialismo que perdurava nessa região e, agora, esses novos líderes impõem essas governanças, de certa forma, impactam e seguem impactando toda essa geopolítica no continente.”
Ele explica que esses novos governos ascenderam no Sahel a partir da década de 2010, quando grupos jihadistas passaram a ocupar a região. Em resposta, França e Estados Unidos enviaram tropas para o Sahel, mas a violência jihadista não diminuiu; ao contrário, se intensificou.
“O número de ataques foi crescendo de forma massiva ao longo dessa década, o que fez o próprio povo perceber que a presença estrangeira servia mais à proteção de interesses econômicos de empresas externas do que à segurança local.”
Para agravar a situação, as bases militares ocidentais funcionavam como “caixas pretas”. “Não se sabia o que acontecia lá dentro”, afirma o especialista. “Funcionavam mais como continuidade da tutela neocolonial do que como combate efetivo à insegurança.”
O apoio popular aos novos governos também é atribuído à corrupção dos antigos líderes, segundo Gustavo de Andrade Durão, professor de história da Universidade Estadual do Piauí (UESPI) e autor do livro "Léopold Sédar Senghor: uma narrativa sobre o Movimento da Négritude".
Durão observa que a África, assim como a América Latina, passa por um processo de redefinição de sua relação com o Estado, com a soberania e com a própria democracia.
“A África começa a ter que se adaptar ao ver esses problemas econômicos, esses problemas sociais, como a questão da migração que nunca foi tão forte, impactam na vida do cidadão comum. Ainda temos uma necessidade, ao meu ver, de repensar a democracia não na retórica, mas na prática. Repensar as instituições.”
Segundo ele, projetos de nação e democracia sempre trazem complicações durante a transição, e modelos impostos, sem considerar as necessidades locais, tendem a fracassar.
No entanto, Durão alerta que as transições democráticas devem ocorrer e não ser adiadas, sob risco de perda de legitimidade e da capacidade de atender à população e promover o desenvolvimento.