Cúpula Dourada, a 'utopia militarista e perigosa' dos EUA para justificar suas políticas coloniais
Embora Donald Trump tenha dito que a Groenlândia é essencial para implantar o grande escudo antimísseis que prometeu, a realidade é que pode se tratar de mais uma narrativa de Washington para justificar suas ações expansionistas na América, já que um projeto militar dessa magnitude seria tecnicamente e financeiramente inviável.
"Isso é mais uma utopia militarista. Há muita retórica na Cúpula Dourada dos EUA, porque a verdadeira questão é como Washington vai financiar algo assim, levando em conta que se trata de um país com uma dívida enorme", afirma em entrevista à Sputnik Martín Pulgar, cientista político e mestre em filosofia da guerra.
O projeto de defesa antiaérea Cúpula Dourada (Golden Dome em inglês) é a grande promessa militar de Trump, que assegura que a ilha ártica, que goza de uma posição geográfica privilegiada, é um território-chave para sua implantação.
"Os EUA precisam da Groenlândia por motivos de segurança nacional. Ela é vital para a Cúpula Dourada que estamos construindo. A OTAN deveria liderar o caminho para que a consigamos", sustentou o mandatário republicano em sua conta na Truth Social.
O custo inicial do projeto foi estimado em cerca de US$ 175 bilhões (R$ 939 bilhões), segundo cifras do próprio Trump. No entanto, analistas independentes e até relatórios do Congresso dos EUA apontaram que o gasto deve ser muito maior, caso Washington se houver a construção de um escudo que funcione com interceptores lançados por satélites a partir do espaço.
A iniciativa promete deter mísseis balísticos intercontinentais, armas hipersônicas, mísseis de cruzeiro avançados e todo tipo de projétil. O impacto financeiro colossal que um desperdício desse tipo representaria para a já gigantesca dívida dos EUA e as próprias leis da física são os principais problemas que se interpõem no sonho de Trump, segundo o entrevistado.
"Vejo como muito difícil que algo desse tipo seja executado no curto prazo [como Trump promete]. Trata-se mais de uma justificativa para suas políticas coloniais", acrescenta.
Uma tarefa "extremamente difícil"
O engenheiro aeroespacial do Instituto de Tecnologia da Geórgia, Thomas González Roberts, disse recentemente à revista Science News que seria impossível encontrar um sistema pelo valor citado por Trump:
"Mesmo as suposições mais otimistas sobre a defesa antimísseis na fase de impulso sugeririam que isso é impossível", indicou.
A questão não se limita ao aspecto econômico. Um estudo da sociedade de física dos EUA, American Physical Society, aponta que não existem provas confiáveis de que um sistema de defesa antiaérea funcione da forma como Trump prometeu.
"Interceptar até mesmo um único míssil balístico intercontinental com ogiva nuclear, ou suas ogivas em voo, nas condições esperadas durante um ataque nuclear, é extremamente difícil. A capacidade de qualquer sistema de defesa antimísseis de fazê-lo de maneira confiável não foi demonstrada", lê-se no relatório intitulado Defesa estratégica contra mísseis balísticos: Desafios para a defesa dos EUA.
O físico e engenheiro aeronáutico Paul Dimotakis, do Instituto de Tecnologia da Califórnia, em diversas publicações alertou que "não se devem confundir peras com maçãs", já que "os diferentes tipos de mísseis de ataque, seu número e sofisticação exigirão defesas adaptadas para cada caso".
Pulgar associou a nova empreitada da Cúpula Dourada com a Guerra nas Estrelas do ex-presidente dos EUA, Ronald Reagan, em 1983, em meio à corrida armamentista com a ex-União Soviética, e que se dissolveu uma década depois devido à impossibilidade tecnológica de concretização.
O ambicioso plano do Pentágono previa a implementação de um sistema de defesa antimísseis com armas espaciais, destinado a proteger o território dos EUA de possível ataque nuclear, em um contexto de Guerra Fria.
Nos últimos 70 anos, os EUA investiram cerca de 400 bilhões de dólares em defesas antimísseis, principalmente as destinadas a interceptar mísseis de longo alcance com ogivas nucleares, segundo estimativas da American Physical Society.
Pulgar alerta que um projeto tão custoso geraria grandes desvios de recursos dentro do orçamento governamental, o que resultaria em cortes em apoios sociais, educação ou saúde, capazes de "romper" o país norte-americano em sua essência.
A organização Arms Control Association também advertiu que os mísseis de ataque são "imensamente mais baratos e fáceis de multiplicar do que os interceptores defensivos".
"Replicar a Cúpula de Ferro de Israel sobre os EUA — multiplicando sua extensão para cobrir quase 4 milhões de milhas quadradas — exigiria 24 mil baterias da Cúpula de Ferro, a U$ 100 milhões cada uma [R$ 540 milhões). Por isso, o custo de desenvolvimento da Cúpula Dourada superaria o orçamento anual do Pentágono", aponta a The Global Network Against Weapons and Nuclear Power in Space, organização que há anos alerta sobre os riscos de militarizar o espaço.
Problemas técnicos
Apesar de a tecnologia ter avançado enormemente em matéria de defesa antiaérea, as leis da física não mudaram, "e esse é realmente o desafio”, segundo a diretora-geral de Segurança e Estabilidade Espacial da Secure World Foundation, Victoria Samson, no ensaio Capacidades contraespaciais, Golden Dome e o estado atual da estabilidade estratégica.
A fundação citou alguns desafios que a Cúpula Dourada enfrentaria:
Pesquisadores como William Hartung, do think tank Quincy Institute for Responsible Statecraft, descreveram o projeto de Trump como "uma fantasia perigosa" que poderia desencadear uma corrida armamentista no espaço. Segundo Pulgar, isso poderia levar o mundo a uma nova era, já que existiria a possibilidade de qualquer país atacar outro a partir do espaço.
"O programa Golden Dome é um programa ofensivo, não defensivo. É extremamente improvável que possa fornecer o suposto escudo 100% eficaz contra um ataque em grande escala de milhares de mísseis que incorporam contramedidas, como múltiplas ogivas falsas ou a capacidade de manobrar nas fases finais de sua trajetória. No entanto, isso encorajaria os EUA a lançar um ataque de primeira intenção", alerta a The Global Network Against Weapons and Nuclear Power in Space.
Uma utopia como pretexto?
Embora Trump insista que a Groenlândia — território autônomo que pertence ao Reino da Dinamarca — é peça fundamental para a Cúpula de Ouro, é provável que ele saiba da sua inviabilidade no longo prazo, apontam os analistas consultados pela Sputnik.
"Dentro do quadro da OTAN, os EUA já têm controle sobre a Groenlândia, mas evidentemente há uma ofensiva [desde a Casa Branca] que tem a ver com chutar o tabuleiro e romper a ordem liberal mundial", ressalta em conversa com a Sputnik o doutor em Ciências Sociais e cientista político da Universidad Nacional de San Martín, Argentina, Daniel Blinder.
Para o analista, existe uma intenção evidente de Trump de refletir uma imagem de "presidente combativo e poderoso para fora", o que explica, em parte, a recente intervenção militar na Venezuela — que resultou no sequestro do presidente Nicolás Maduro — e as crescentes tensões internas na OTAN em torno da Groenlândia.
"Os países aliados da OTAN poderiam se sentir incomodados com a decisão dos EUA e poderiam surgir discussões na política interna de várias nações europeias, começando pela Dinamarca", observa Blinder.
O que sim é certo é que os EUA têm uma grande vulnerabilidade em relação ao seu espaço de defesa aéreo, segundo Stephen Bryen, ex-funcionário do Pentágono e analista em temas de defesa:
"Os EUA não contam com um sistema de defesa aérea integral e estão muito expostos a qualquer ataque inimigo, inclusive contra instalações governamentais sensíveis, usinas nucleares, reservatórios e barragens, e a própria população. Imagine um drone colidindo durante a Super Bowl", aponta Bryen.
Por Sputinik Brasil