OTAN

Queda de braço pela Groenlândia pode representar o fim da OTAN?

Publicado em 15/01/2026 às 13:52
© AP Photo / Evgeniy Maloletka

Os Estados Unidos vêm esticando a corda com ameaças para tentar tomar controle da Groenlândia. A Dinamarca, por sua vez, resiste aos discursos e não cede às investidas norte-americanas. O pano-de-fundo desse incidente pode ser o fim da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) nos moldes que conhecemos?

Conquistar territórios que lhes parecem interessantes não é novidade para os Estados Unidos, pelo contrário, "faz parte do projeto estadunidense desde o começo", diz Thiago Rodrigues, professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade Federal Fluminense (UFF), em entrevista ao Mundioka, podcast da Sputnik Brasil.

Os métodos para conseguir seus objetivos, que, segundo o especialista, estão ligados aos interesses do capital norte-americano, é que variam ao longo do tempo. Já foram por guerras, apoios a golpes militares, a impeachments e manifestações populares, também chamadas de revolução colorida nas primeiras décadas do século XXI.

Na esteira dos interesses dos EUA, Rodrigues ressalta que a Groenlândia e o Ártico em geral não são uma novidade. Ainda no século XIX, o Alasca foi comprado do então Império russo. Embora já tenha a base espacial de Pituffik na ilha ártica, os interesses no território groenlandês alegados pelo governo de Donald Trump vão na mão de questões energéticas, como o caso do petróleo e minerais raros, além da questão da navegação, que impactaria também na política externa de China e Rússia.

Base Espacial Pituffik
Base Espacial Pituffik

Recentemente a Casa Branca declarou que a Groenlândia é uma extensão do perímetro de defesa norte-americano, "o que nada mais é do que uma forma de conter a influência sino-russa naquela região", diz Letícia da Luz, mestranda em Estudos Marítimos pela Escola de Guerra Naval (PPGEM/EGN).

"O objetivo, basicamente, é evitar essa aproximação tanto da China quanto da Rússia, usando iniciativas como a Rota da Seda Polar, por exemplo, que se consolidem em águas que os Estados Unidos consideram hoje parte do seu domínio natural", acrescenta.

O derretimento do gelo ártico, que amplia as rotas marítimas no entorno, também afeta a questão dos recursos naturais, "o que coloca a Groenlândia no centro de futuros corredores de comércio e disputas geopolíticas", ressalta Luz.

Barco navega por uma enseada congelada perto de Nuuk, na Groenlândia.
Barco navega por uma enseada congelada perto de Nuuk, na Groenlândia.

"O Ártico deixa de ser, na percepção americana, uma zona de baixa tensão e ela se torna o principal teatro, digamos assim, dessa competição entre as potências", avalia a analista.

Tensões sobre a mesa: qual será o futuro da Groenlândia e da OTAN?

Na terça-feira (13), a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, descreveu a pressão de Washington para controlar a Groenlândia como "inaceitável" e alertou que a situação pode piorar.

Trump, por sua vez, chegou a dizer na semana passada que os EUA controlarão a Groenlândia "de um jeito ou de outro". Ontem (14), no Truth Social, o presidente escreveu que seu país precisa da ilha por uma questão de defesa nacional.

"A Groenlândia é necessária aos Estados Unidos por motivos de segurança nacional. É vital para a Cúpula Dourada que estamos construindo", publicou Trump na rede social.

Na madrugada desta quinta-feira (15), horas após uma cúpula infrutífera em Washington dedicada à questão da Groenlândia, dois aviões dinamarqueses chegaram à ilha com soldados de forças especiais e de inteligência europeias, aumentando as tensões entre países que fazem parte de uma mesma aliança militar, a OTAN.

Para Luz, além da Dinamarca, há uma tensão principamente entre aliados como França e Alemanha, que veem a postura dos EUA "como uma ameaça à soberania europeia".

Sobre o futuro da OTAN, Rodrigues ressalta que há um desgaste de Trump com o bloco desde o primeiro mandato do republicano, que entende que os Estados Unidos financiam sozinhos a instituição.

Para o professor da UFF, o presidente norte-americano conta com um grupo articulado que trabalha nos bastidores, "dispostos a fazer movimentações muito consistentes", enquanto o chefe da Casa Branca retém a atenção midiática. No contexto dessa política, segundo Rodrigues, estaria "uma renegociação geral do pacto com a Europa".

De forma geral, o especialista avalia que Trump vai usando as ameaças e tentando estressar a situação com a Europa para obter melhores condições de negociação. "É como se fosse, assim, aquele cara que quer comprar o seu imóvel, mas ele primeiro acha todos os defeitos possíveis no imóvel, diz que vai comprar o do vizinho e vai infernizar sua vida. Ele faz um monte de coisa para você baixar muito o preço", exemplifica. Se a OTAN vai acabar ou não a partir dessa fricção "é uma outra coisa", completou.


Por Sputinik Brasil