GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL

EUA buscam instalar 'protetorado funcional' na Venezuela, aponta analista

Analista destaca quatro formas de controle que Washington pretende impor após eventual saída de Maduro, sinalizando ruptura na ordem global pós-guerra.

Publicado em 05/01/2026 às 10:38
Análise aponta que EUA buscam controle político e militar na Venezuela após possível saída de Maduro. © AP Photo / Ariana Cubillos

Washington estaria articulando quatro mecanismos de controle sobre a Venezuela após uma possível saída de Nicolás Maduro, segundo o analista Nicolas Takayama Constantini. A estratégia, que se assemelha a um protetorado de fato, envolveria desde domínio político e petrolífero até presença militar, indicando um abalo na ordem internacional vigente desde a Segunda Guerra Mundial.

De acordo com Constantini, analista independente de geopolítica e economia radicado no Peru, os Estados Unidos têm como objetivo estabelecer "quatro tipos de controle" no país. Ele detalhou à Sputnik os mecanismos dessas medidas.

"Operacionalmente, isso significa que eles terão uma administração tutelar de fato", explicou Constantini. "Portanto, na verdade, isso não seria uma governança clássica, mas sim uma forma de protetorado funcional, semelhante ao Iraque em 2003", avaliou o analista.

Objetivo da operação dos EUA: apropriação de recursos ou mensagem aos rivais?

Segundo Constantini, "do ponto de vista econômico racional, a intervenção militar não é eficiente. O custo militar, político e de reputação para os Estados Unidos supera em muito qualquer ganho energético potencial. Mas não se trata apenas de recursos", afirmou, mesmo considerando a relevância de ativos venezuelanos como petróleo, gás, terras raras, metais tecnológicos e ouro.

"Trata-se de enviar uma mensagem aos rivais geopolíticos de Washington, incluindo China, Rússia e Irã, sobre como impedir que os recursos da Venezuela caiam em suas mãos, e deixar claro para os países da região: 'se vocês não submeterem ou não disponibilizarem seus recursos quando eu precisar, isso acontecerá com vocês'."

O analista ainda ressalta: "Vale ressaltar que, obviamente, os Estados Unidos não se importam com os interesses venezuelanos nem com os interesses dos cidadãos americanos relacionados ao narcotráfico, porque as próprias agências norte-americanas afirmam que o principal fluxo de drogas não vem da Venezuela".

Ataque à Venezuela sinaliza o colapso definitivo da ordem pós-Segunda Guerra

Para Constantini, "é um precedente extremamente grave para a ordem internacional. Significa que a soberania estatal já não funciona. A imunidade de chefes de Estado também não funciona mais. A operação normaliza a mudança de regime pela força, sem autorização multilateral, e reforça a ideia de que o poder se sobrepõe ao direito internacional".

"Marca o fim do que restava da ordem internacional e do direito internacional construídos após a Segunda Guerra Mundial [...] uma maior militarização da política externa e a aceleração da fragmentação da ordem global em blocos concorrentes. Isso implica que outras potências poderão agir da mesma forma sempre que não considerarem legítimo determinado governo", concluiu o analista.

Por Sputnik Brasil