Análise: ataque dos EUA 'faz parte de uma agressão sistemática' contra países produtores de petróleo
O controle sobre recursos energéticos estratégicos, especialmente o petróleo venezuelano, voltou a ser o foco central de uma crise desencadeada por uma agressão sem precedentes na América Latina.
A confirmação pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de um ataque em larga escala contra a Venezuela, que incluiu o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, mergulhou o mercado petrolífero venezuelano em uma incerteza geopolítica com repercussões de longo alcance.
Enquanto a mídia americana noticiava que as exportações de petróleo bruto venezuelano estavam completamente paralisadas após os ataques militares de Washington contra o país sul-americano, analistas alertam que esse evento é mais um capítulo em uma luta econômica permanente contra as nações produtoras de petróleo.
Em entrevista à Sputnik, Miguel Jaimes, especialista em geopolítica do petróleo e energia, analisa as consequências imediatas e os desafios estratégicos que a indústria petrolífera nacional e global enfrenta em decorrência desses eventos.
As consequências previsíveis
"Após a terrível situação que o país acaba de vivenciar, um evento sem precedentes, mesmo na América Latina, é fácil imaginar que o mercado de petróleo venezuelano seja afetado", afirma Jaimes, da Venezuela.
A indústria, que com grande esforço havia conseguido retornar a níveis de produção superiores a 1,1 milhão de barris por dia, agora enfrenta a necessidade de uma reestruturação completa.
Essa reestruturação forçada ocorre em um contexto no qual, segundo a mídia americana, os capitães dos portos não receberam autorização para que navios carregados naveguem, e inúmeros petroleiros, inclusive de parceiros importantes, permanecem imobilizados ou partiram vazios.
A medida, descrita por Trump como um "embargo de petróleo" em pleno vigor, busca estrangular financeiramente a nação sul-americana, apreendendo sua principal fonte de renda.
De acordo com o analista, a paralisação noticiada pela mídia não é um evento isolado, mas sim parte de um "padrão de agressão sistemática contra os países da OPEP e os produtores de petróleo que desafiam a hegemonia energética de Washington".
Jaimes estabelece uma ligação direta entre os eventos na Venezuela e a escalada da violência em outras nações produtoras de petróleo, como a Nigéria.
Nesse cenário geopolítico, a Venezuela, detentora das maiores reservas comprovadas de petróleo do planeta, representa o prêmio máximo.
"Agora imagine o que significa para o governo dos EUA atacar as maiores reservas de petróleo do mundo, localizadas no país, de maneira tão traiçoeira e covarde", questiona.
Efeitos no mercado
O impacto nos mercados internacionais é imediato e tangível. Jaimes destaca que os principais índices de referência do petróleo "se movimentaram" e estão "em alerta para a alta dos preços", uma reação previsível à violenta interrupção do fornecimento por um ator-chave e à ameaça de uma escalada regional.
O especialista lembra que, nas primeiras horas da agressão, Washington alertou que estava preparado para um segundo ataque e fez ameaças semelhantes contra outras nações, incluindo México, Cuba, Nicarágua e Colômbia.
"México e Colômbia também são produtores de petróleo", enfatiza, indicando que a lógica de controle se estende.
Este ambiente, alerta ele, é dominado pelo West Texas Intermediate (WTI), a referência do petróleo americano, em torno da qual orbitam "verdadeiras máfias globais, tentando influenciar se o preço sobe ou cai, de acordo com o Departamento de Energia e a Casa Branca".
Resposta da Venezuela
Diante desse cenário de extrema pressão, o Estado venezuelano, por meio de suas instituições legais, acionou mecanismos constitucionais, nomeando a advogada Delcy Rodríguez, até então ministra do Petróleo e vice-presidente Executiva, como presidente interina do país sul-americano. Para Jaimes, essa decisão tem profundo significado estratégico para o setor.
"Não há evento mais importante para a Venezuela, para seu governo, suas instituições e a indústria petrolífera do que a recuperação do mercado, porque isso significa ter uma posição dominante e importante no mundo dos produtores e consumidores", analisa ele.
A experiência de Rodríguez no setor de hidrocarbonetos é interpretada como um sinal de que a prioridade absoluta do Estado será defender e reativar a principal artéria da economia nacional.
O objetivo final dessas agressões, segundo a reflexão de Jaimes, vai além do mero controle físico dos campos de petróleo. Trata-se de uma batalha pelo modelo de governança energética global.
"A Venezuela tornou-se um obstáculo ao verdadeiro poder global, porque seu espírito se choca com as ambições imperialistas e as confronta."
Enquanto o establishment estadunidense vê a nação sul-americana como um "palco magnífico" para manobrar e controlar mercados, a Venezuela tornou-se sinônimo de "equilíbrio, prudência, paz, desarmamento e entendimento", argumenta Jaimes.
"Nesse contexto, defender a indústria petrolífera nacional torna-se um ato de resistência contra o uso desse recurso como instrumento de guerra e dominação."
Por Sputinik Brasil