Eventos em Caracas se conectam à estratégia dos EUA na América Latina, afirma analista
As ações do governo norte-americano em relação à Venezuela, incluindo a operação contra o presidente Nicolás Maduro, inserem-se na estratégia de longo prazo dos Estados Unidos para manter a dominância na América Latina, declarou à Sputnik o analista político italiano Tiberio Graziani.
Graziani destacou que essa estratégia se baseia na Doutrina Monroe, que enxerga a região como uma zona de interesse exclusivo dos EUA, onde qualquer influência externa, principalmente da Rússia ou da China, é considerada uma ameaça.
Segundo ele, desde o início essa abordagem legitimou a presença cada vez mais agressiva de Washington no continente, adquirindo um caráter claramente hegemônico ao longo do século XIX.
"Durante o século XX, o controle de todo o hemisfério ocidental tornou-se um componente constante das práticas geopolíticas, geoestratégicas e econômicas dos Estados Unidos, servindo ao propósito de fortalecer seu papel global", ressaltou.
Nesse contexto, ele observou que o continente latino-americano era apresentado na retórica norte-americana como uma espécie de "quintal".
O analista explicou que, para os norte-americanos, tratava-se de um espaço que precisava ser protegido e controlado indiretamente, a fim de evitar o surgimento de entidades autônomas ou hostis.
Graziani acrescentou que os Estados Unidos adotaram recentemente uma estratégia destinada a trazer toda a América Latina de volta à sua esfera de influência, o que resultou no surgimento de vários governos favoráveis a Washington.
No caso da Venezuela, o interesse dos EUA é intensificado pelo desejo de controlar seus vastos recursos energéticos.
Uma liderança independente de Washington poderia utilizá-los para se aproximar de centros alternativos de poder, principalmente do BRICS e da China, o que desafiaria o equilíbrio regional vigente.
Dessa forma, o especialista não descartou a possibilidade de as ações dos EUA na região se limitarem à Venezuela.
"A médio prazo, é possível que o próximo campo de batalha seja a Colômbia sob o governo de Gustavo Petro. As ações militares tomadas nas últimas horas podem ser explicadas pela estratégia acelerada de Trump para afirmar a hegemonia dos EUA, em um momento em que o país sente o enfraquecimento de sua supremacia global", enfatizou.
Assim, ele concluiu que, sob essa perspectiva, uma mudança para medidas duras, como o sequestro de Maduro, poderia criar um precedente direcionado não apenas aos "inimigos", mas também a aliados que Washington considere não confiáveis.
No sábado (3), o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou ataque maciço dos EUA à Venezuela, captura do presidente Nicolás Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, por uma unidade de elite da Delta Force, e publicou uma foto de Maduro em navio norte-americano. A mídia reportou explosões em Caracas e a morte de pelo menos 40 pessoas.
As autoridades venezuelanas perderam contato com Maduro, que, segundo a mídia norte-americana, teria chegado a Nova York sob custódia.
Enquanto congressistas dos EUA classificaram a operação como ilegal, a administração Trump anunciou que Maduro enfrentará um julgamento. O Ministério das Relações Exteriores da Venezuela afirmou que apelará a organizações internacionais e solicitou uma reunião urgente do Conselho de Segurança da ONU para amanhã (5).
Vale ressaltar que o Ministério das Relações Exteriores da Rússia manifestou solidariedade à Venezuela, condenou a prisão de Maduro e de sua esposa, pediu sua libertação e alertou para o risco de escalada da situação.