INVESTIMENTOS

Como o investidor pode entender melhor o risco e o retorno do crédito estruturado

Com mercado mais maduro, busca é por priorizar estruturas robustas e proteção de capital

Por Andrezza Oliveira Publicado em 18/03/2026 às 16:40
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial Nano Banana (Google Imagen)

O avanço dos Fundos de Investimento em Direitos Creditórios (FIDCs) no Brasil tem levado investidores a um novo desafio: compreender, com mais profundidade, como avaliar risco e retorno em estruturas de crédito que vão além da renda fixa tradicional. Em um mercado que amadurece rapidamente, a capacidade de leitura das proteções, do lastro e da governança passou a ser determinante para decisões de alocação.

Segundo Richard Ionescu, CEO da IOX, boutique especializada na originação e estruturação de operações estruturadas, os dados recentes de captação divulgados pela Anbima refletem essa mudança de comportamento. “O investidor está mais criterioso. Ele não rejeita risco, mas exige que esse risco seja explicável, mensurável e mitigável. Isso muda completamente a forma de analisar o crédito estruturado”, afirma.

Após um ciclo de forte crescimento entre 2021 e 2024, marcado pela entrada de estruturas mais simples e teses ainda pouco testadas, 2025 inaugura uma nova fase. A captação segue elevada, mas concentrada em menos fundos, com estruturas mais robustas, subordinação relevante e governança clara. “Não estamos diante de estagnação, mas de um crescimento mais saudável. O crédito estruturado entra definitivamente em uma fase de maturidade no mercado financeiro brasileiro”, diz Ionescu.

Da promessa de retorno ao entendimento do risco

Na prática, entender o risco e o retorno de um FIDC exige ir além da taxa prometida. De acordo com o CEO da IOX, o investidor passou a olhar com mais atenção para elementos como qualidade do originador, diversificação do lastro, histórico operacional e mecanismos de proteção. “Subordinação elevada, cotas júnior relevantes, overcollateral, seguros e gatilhos de proteção deixaram de ser diferenciais e passaram a ser pré-requisitos”, explica.

Esse movimento também ajuda a explicar a migração de recursos. O crescimento dos FIDCs ocorre, majoritariamente, por substituição de posições em instrumentos tradicionais de renda fixa, como CDBs, fundos DI e debêntures simples. “No início, o FIDC era visto como um ‘upgrade de CDI’. Hoje, ele começa a ocupar um espaço estrutural na carteira, substituindo renda fixa tradicional por crédito com prêmio melhor, mas com risco mais bem controlado”, afirma Ionescu.

Quais estruturas concentram os fluxos mais consistentes

Na avaliação da IOX, os investidores têm direcionado recursos principalmente para FIDCs pulverizados de alta qualidade, estruturas ligadas a supply chain, crédito corporativo middle market e operações híbridas com garantias reais ou colaterais financeiros. A preferência está ligada à previsibilidade de fluxo, maior capacidade de diversificação do risco e engenharia de proteção mais sofisticada.

Segmentos como agro e consignado seguem relevantes, mas passaram a ser analisados com maior rigor. “A redução de fluxo nesses setores é cíclica, não estrutural. Eventos climáticos, volatilidade de margens e juros elevados aumentam a sensibilidade ao risco operacional. Com a expectativa de queda das taxas em 2026, esses segmentos tendem a voltar ao radar”, avalia o executivo.

Outro destaque é a categoria conhecida como “FIDC Outros”, que reúne estruturas inovadoras e ativos alternativos. “Esse grupo reflete a busca do investidor por menos commodity de crédito e mais engenharia de risco. São estruturas que exigem análise mais profunda, mas entregam uma relação risco-retorno mais interessante quando bem desenhadas”, diz Ionescu.

Mais transparência, melhor leitura do risco

As mudanças recentes no arcabouço regulatório da CVM, especialmente no informe mensal dos FIDCs, também contribuíram para melhorar a capacidade de análise do investidor. O aumento da transparência, da padronização e da comparabilidade entre fundos reduziu a assimetria de informação, facilitando a entrada de investidores institucionais.

“Fundos de pensão, seguradoras e family offices precisam de dados recorrentes, confiáveis e auditáveis. Com as novas regras, o FIDC se torna um produto mais ‘investível’ do ponto de vista institucional, permitindo acompanhamento mais claro da performance e dos eventos de crédito”, afirma Ionescu.

Risco de compressão e importância da seletividade

Com o aumento da demanda, alguns nichos já começam a apresentar sinais de compressão de retorno. “Quando há excesso de capital perseguindo estruturas semelhantes, os spreads diminuem e o retorno ajustado ao risco se deteriora. O maior risco está em fundos que afrouxam critérios de originação ou reduzem subordinação para manter volume”, alerta o CEO da IOX.

Para 2026, a perspectiva é de que o crédito estruturado deixe de ser uma aposta tática e passe a ocupar espaço estrutural nas carteiras. “O destino do capital será, cada vez mais, fundos com escala, histórico comprovado e disciplina de originação. Entender o risco é o que separa o investidor que apenas busca retorno daquele que constrói alocação consistente no longo prazo”, conclui Ionescu.