Pesquisa revela que o vácuo não é tão vazio quanto parece
Estudo apresenta evidências da birrefringência do vácuo através de observações de um magnetar.
Campos magnéticos extremos de um magnetar revelaram sinais inéditos de birrefringência do vácuo, efeito previsto há 90 anos, mostrando que o espaço "vazio" altera a forma como a luz se propaga. Observações do IXPE detectaram polarização três vezes maior que a esperada, a evidência mais forte já obtida do fenômeno.
Uma equipe de pesquisa apresentou evidências inéditas de que campos magnéticos extremos podem alterar as propriedades do vácuo, fazendo com que o espaço aparentemente vazio mude a forma como a luz se propaga.
De acordo com o estudo, sinais analisados de um magnetar reforçaram uma previsão teórica feita há quase 90 anos, segundo a qual o vácuo é permeado por partículas virtuais que interagem brevemente com o ambiente.
A ideia remonta a 1936, quando Heisenberg e Euler propuseram que o espaço nunca é totalmente vazio, mas preenchido por elétrons e pósitrons que surgem e desaparecem. Em condições normais, essa "espuma quântica" é invisível, mas campos magnéticos extremamente fortes podem reorganizar as ondas de luz, produzindo o fenômeno conhecido como birrefringência do vácuo.
Cientistas que utilizaram o IXPE da NASA realizaram mais de 140 horas de observações do magnetar 1E 1547-5408, mostrado nesta ilustração artística de 5 de agosto de 2026, entre março e abril de 2025.
Magnetars, remanescentes ultradensos de estrelas massivas, possuem os campos magnéticos mais intensos do Universo e funcionam como laboratórios naturais para testar efeitos impossíveis de reproduzir na Terra. Com o lançamento do telescópio espacial IXPE em 2021, tornou‑se possível medir a polarização de raios X em torno desses objetos com precisão inédita.
Em 2025, os pesquisadores observaram o magnetar 1E 1547‑5408 usando o IXPE, complementando os dados com telescópios de rádio e raios X na Terra e na Estação Espacial Internacional (EEI). Os raios X detectados estavam quase três vezes mais polarizados do que o esperado e alinhados com o campo magnético da estrela, coincidindo com o padrão observado em suas emissões de rádio.
Essa combinação de sinais deixou a birrefringência do vácuo como a única explicação plausível, oferecendo a confirmação mais robusta já obtida do efeito previsto por Heisenberg. Para os cientistas, o resultado reforça que os modelos fundamentais da física continuam válidos mesmo sob condições extremas.
A descoberta também fecha um ciclo de duas décadas de observações do magnetar, iniciado quando suas ondas de rádio foram detectadas pela primeira vez em 2007. O objeto, então apenas o segundo magnetar conhecido por emitir rádio, tornou‑se peça central na investigação de uma das previsões mais peculiares da mecânica quântica.
Os pesquisadores esperam consolidar a evidência com futuras missões, como o proposto observatório orbital GoSOX, além de simulações mais refinadas que permitam distinguir o sinal quântico de outros processos astrofísicos. Para a equipe, esses dados podem finalmente concluir uma busca iniciada há quase um século.